Além dos Alertas: Organização Comunitária e Justiça Climática Avançam nas Periferias Urbanas

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Especialistas e moradores defendem planos locais de contingência para conter os impactos de eventos extremos em regiões vulneráveis de São Paulo e Pernambuco.

Diante da intensificação de eventos climáticos extremos, especialistas e lideranças sociais defendem que a proteção das populações vulneráveis depende de estratégias que ultrapassem os avisos formais de risco e promovam a participação comunitária. O debate ganha relevância em cenários urbanos de São Paulo e de Pernambuco, onde as desigualdades socioespaciais determinam os impactos de tempestades e ondas de calor sobre os moradores das periferias.

A disparidade infraestrutural entre bairros reflete o conceito de justiça climática no cotidiano das cidades. Um levantamento do Centro de Estudos da Favela (CEFAVELA), vinculado à Universidade Federal do ABC (UFABC), identificou que, entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, a temperatura de superfície registrou diferenças de até 15°C entre o Morumbi e a comunidade de Paraisópolis, na capital paulista. Enquanto os índices no Morumbi ficaram em torno de 30°C, em Paraisópolis alcançaram 45°C, devido à escassez de arborização e ao padrão de ocupação do solo.

Para Sidney Bruno, cofundador e diretor de marketing do Instituto Comuta e da Comuta Arquitetura, a variação térmica evidencia que as consequências da crise ambiental se relacionam diretamente com renda, endereço e qualidade habitacional. O pesquisador Felipe Santos, colaborador do programa Cemaden Educação, complementa que a vulnerabilidade periférica decorre de um processo histórico de exclusão que limita o acesso a serviços básicos.

Santos ressalta que o envio de avisos pela Defesa Civil é vital, mas não garante, de forma isolada, a prontidão da comunidade. Segundo ele, a gestão de riscos exige o conhecimento prévio do território, a sinalização de caminhos seguros, a definição de abrigos e o fortalecimento de redes de solidariedade para apoiar idosos, crianças e pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

No Jardim Capela, na zona sul de São Paulo, a conselheira de bairro Jéssica Morais relata que a população recebe os alertas com antecedência, porém carece de planejamento coletivo prévio. Quando as chuvas permanecem por dias seguidos, o confinamento impede o deslocamento para o trabalho, estudos e serviços essenciais, deixando os moradores dependentes de improvisações no momento da crise.

Em contrapartida, iniciativas de base têm mostrado resultados práticos na redução de danos. No Jardim Keralux e na Vila Guaraciaba, também localizados em São Paulo, o projeto Adapta Keraciaba instituiu o envio de alertas socioambientais por áudio via WhatsApp para agilizar a comunicação interna. Outra experiência bem-sucedida ocorreu na comunidade do Retiro, na periferia de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco.

Durante as fortes chuvas de maio de 2022, moradores do Retiro aplicaram dados de monitoramento pluviométrico desenvolvidos pelo projeto Dados à Prova d’Água, do Cemaden Educação, em conjunto com o Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (NUPDEC). Enquanto a Região Metropolitana do Recife registrou 64 mortes no período, a organização prévia dos moradores da comunidade pernambucana evitou perdas humanas no local.

A pesquisadora Leila Vendrametto, do Instituto Climares, enfatiza que os planos de contingência precisam evoluir de documentos formais para instrumentos dinâmicos, elaborados em parceria com a população. Conforme aponta a especialista, a produção científica só se converte em proteção real quando se transforma em confiança e capacidade de ação direta nos bairros.

Consultada sobre as políticas de prevenção, a Prefeitura de São Paulo informou que atua de forma contínua por meio do Plano de Prevenção às Chuvas (PPC), integrando serviços de drenagem, zeladoria, saúde e assistência social. A gestão municipal destacou o investimento de R$ 11 bilhões em infraestrutura de drenagem desde 2021, valor superior ao dobro do montante aplicado entre 2011 e 2020.

A administração paulistana ressaltou ainda o lançamento do Plano de Contingência Participativo, ocorrido em abril de 2026, focado na colaboração de moradores para a indicação de rotas de fuga e locais de apoio. A Defesa Civil municipal contabiliza 1.327 voluntários cadastrados nos NUPDECs das subprefeituras e mantém 919 Planos de Contingência (PLANCONs) voltados a riscos geológicos, hidrológicos e incêndios, além de manter diretrizes para o biênio de 2026 e 2027.

Serviço

Os interessados em participar dos Núcleos de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs) da cidade de São Paulo podem procurar a Defesa Civil da respectiva Subprefeitura. Os Planos de Contingência (PLANCONs) da capital paulista podem ser consultados no Portal da Legislação Municipal.


Fonte:
periferiaemmovimento.com.br / Periferia em Movimento

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