Uso de forrageiras defasadas limita a rentabilidade da pecuária brasileira
Durante a 34ª Expoabra, especialista aponta que 80% das pastagens utilizam materiais do século passado e apresenta novos cultivares de alta produtividade.

Durante a 34ª Expoabra, realizada no Parque de Exposição Granja do Torto, em Brasília, o pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados, chamou a atenção para o descompasso entre a evolução da genética animal e o manejo das pastagens no país. No painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, o especialista argumentou que a modernização do rebanho bovino nas últimas décadas exige uma mudança de mentalidade quanto à escolha das forrageiras, ressaltando que o pasto deve ser tratado como tecnologia de ponta para garantir rentabilidade e produtividade ao setor.
O Brasil ostenta o segundo maior rebanho bovino do planeta, além de figurar como o segundo maior produtor e o principal exportador mundial de carne. Em 2025, o valor bruto da produção agropecuária (VBP) do país alcançou R$ 1,3 trilhão, dos quais R$ 250 bilhões foram gerados pela pecuária. Toda essa cadeia produtiva assenta-se em uma extensão de 160,5 milhões de hectares de pastagens — sendo 62,7 milhões localizados no bioma Cerrado. Dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) indicam que 80,14% dos bovinos abatidos no país no último ano foram terminados a pasto, caracterizando o modelo produtivo conhecido como “boi verde”.
Apesar da liderança global, Ayres destacou que 80% das cultivares de forrageiras em uso no território nacional são tecnologias defasadas, desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990. Segundo o pesquisador, o preço das sementes costuma ser o fator determinante para o pecuarista, embora represente apenas 10% do custo total de implantação da pastagem. A insistência em materiais antigos contrasta com o salto de desempenho verificado nos animais. Enquanto na pecuária tradicional o peso médio de carcaça variava entre 210 kg e 220 kg, com idade de abate entre 36 e 42 meses e rendimento de 50% a 52%, a pecuária moderna atinge de 290 kg a 310 kg de carcaça, reduz o tempo de abate para 18 a 24 meses e eleva o rendimento para a faixa de 54% a 56%.
Para responder aos desafios do campo — como controle de pragas e doenças, escassez hídrica na seca e necessidade de alto valor nutritivo —, a Embrapa e a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto) desenvolveram novas opções tecnológicas. Entre as cultivares apresentadas está a BRS Carinás, híbrido de *Brachiaria decumbens* lançado em abril deste ano como substituta do tradicional “capim-braquiarinha” (Basilisk). De hábito semiereto, folhas mais largas e perfilhos basais numerosos, a planta tolera solos ácidos e de baixo teor de fósforo, cobrindo o solo com rapidez. Seu teor de proteína situa-se entre 13% e 14%, garantindo ganho de peso de 13 arrobas por hectare ao ano.
Outra alternativa é a *Brachiaria brizantha* BRS Paiaguás, desenvolvida para prolongar o pastejo na transição chuva-seca em razão da menor senescência foliar, superando a cultivar BRS Piatã em cerca de 80% no ganho médio diário por animal e em 40% na taxa de lotação durante a estiagem. Para sistemas intensivos sob manejo rotacionado, a *Panicum maximum* BRS Zuri surge como substituta de materiais da década de 1990 suscetíveis a manchas foliares, como Tanzânia-1 e Mombaça, registrando ganhos diários e taxa de lotação de 10% a 15% superiores à cultivar Massai. No mesmo segmento, a BRS Tamani oferece porte baixo e abundante massa foliar de fácil manejo, sendo responsiva à adubação nitrogenada.
Lançada em 2022 para substituir a BRS Planaltina (de 1980), a *Andropogon gayanus* BRS Sarandi é recomendada para sistemas de cria e recria em solos rasos, pedregosos, arenosos ou de baixa fertilidade, especialmente na região do Matopiba (Cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e no norte de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. A cultivar rebrota rapidamente no início das chuvas, podendo ocupar de 20% a 30% da área da propriedade e proporcionando rendimento de 10 a 15 arrobas por hectare ao ano, proteína de 7% a 11%, produção de 11 a 15 toneladas de pasto por hectare ao ano e taxa de lotação de 3 Unidades Animais (UA) por hectare.
O impacto financeiro direto da atualização das pastagens foi quantificado pelo especialista em termos de ganho anual por hectare em relação aos materiais tradicionais. A cultivar BRS Paiaguás gera R$ 1.035/ha/ano a mais que a BRS Piatã (+7%); a BRS Carinás e a BRS Zuri proporcionam R$ 483/ha/ano a mais (+13%) frente às cultivares Basilisk e Mombaça, respectivamente; a BRS Tamani rende R$ 1.593/ha/ano adicionais (+9%) sobre a cultivar Massai; a BRS Quênia supera a Mombaça em R$ 3.243/ha/ano (+17%); e a BRS Sarandi supera a BRS Planaltina em R$ 1.275/ha/ano (+20%).
De acordo com projeções da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que preconiza a ingestão diária mínima de 1 grama de proteína por quilograma de peso corporal, a demanda global por carne bovina crescerá 13% em 2026, exigindo um volume total de 76 milhões de toneladas. Para responder a esse consumo, o Brasil precisará superar gargalos produtivos internos. A produtividade média nacional atual é de 67,7 kg de carcaça por hectare ao ano, mas 76% dos produtores (1,12 milhão de propriedades) encontram-se abaixo desta marca.
O rebanho nacional é estimado em 238 milhões de cabeças pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e em 202,78 milhões pela Abiec. A Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) indica a existência de 65,6 milhões de matrizes de corte aptas à reprodução. No entanto, a taxa média de natalidade é de cerca de 60% e a de desfrute atinge apenas 19%, o que resulta em 26,3 milhões de matrizes não gestantes ao ano, custando entre R$ 800 e R$ 1.200 cada para a propriedade. Se a taxa de desmame fosse elevada para 80%, seriam produzidos mais 16,4 milhões de bezerros por ano. Em um cenário simulado com 100 vacas, a produção adicional de 20 bezerros (avaliados em R$ 3.400 cada aos 12 meses e 285 kg) representaria uma receita incremental de R$ 68 mil.
O painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte” contou também com exposições dos pesquisadores Cláudio Magnabosco (Embrapa Cerrados), que abordou o impacto econômico de touros melhoradores; Letícia Pereira (Instituto de Zootecnia / Programa GMA-USP), que tratou de estratégias de eficiência e rentabilidade no rebanho de cria; e Ricardo Arantes (TRI Comunicação), com apresentação sobre as formas de enfrentar os desafios do agronegócio moderno.
A Embrapa disponibiliza informações detalhadas sobre o portfólio de forrageiras em sua Página de Cultivares (embrapa.br/cultivares), no aplicativo Pasto Certo (versões Android, iOS e web em pastocerto.com), no repositório de publicações (embrapa.br/publicacoes-e-bibliotecas) e por meio de seu Serviço de Atendimento ao Cidadão (embrapa.br/fale-conosco/sac/).
Fonte: embrapa.br / Portal Embrapa
