Patrimônio afro-brasileiro ganha projeção global com a inclusão de três novos sítios em rede da Unesco
Serra da Barriga, em Alagoas, Cais do Valongo e Sociedade Protetora dos Desvalidos passam a compor mapeamento internacional de memória da escravidão e da resistência negra

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) oficializou a inclusão de três importantes territórios da memória afro-brasileira em sua Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. A expansão contempla a Serra da Barriga, situada no município de União dos Palmares, em Alagoas; o Cais do Valongo, na cidade do Rio de Janeiro; e a Sociedade Protetora dos Desvalidos, localizada em Salvador, na Bahia. Com esses ingressos, anunciados em 23 de outubro de 2026, o Brasil dobrou sua representação no circuito internacional de preservação, somando agora seis espaços reconhecidos.
A iniciativa internacional, criada em 2024 no âmbito do Programa Rotas dos Povos Escravizados da Unesco, busca fortalecer a salvaguarda de marcos históricos ligados à escravização e às lutas de libertação, promovendo a cooperação científica, atividades pedagógicas e o engajamento comunitário. Celebrando a conquista, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, destacou que o reconhecimento reforça a urgência do combate ao racismo e ao apagamento histórico. De acordo com a ministra, preservar esses territórios significa reconhecer a força fundamental da população negra na formação cultural do país, assegurando que trajetórias de resistência e transformação sejam transmitidas às gerações futuras.
O sítio histórico da Serra da Barriga, em União dos Palmares, guarda a memória central do Quilombo dos Palmares, a mais emblemática experiência de resistência contra o sistema escravista nas Américas. Associado a lideranças como Zumbi dos Palmares e Dandara dos Palmares, o local abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Administrado pela Fundação Cultural Palmares (FCP), autarquia vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), o parque atua na difusão de conhecimentos tradicionais e na promoção do patrimônio afro-brasileiro, contando também com o tombamento e a proteção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Já o Cais do Valongo, situado na região portuária do Rio de Janeiro, sobressai-se como um dos mais expressivos testemunhos materiais do tráfico transatlântico de africanos. Edificado em 1811, o porto recebeu centenas de milhares de pessoas trazidas à força do continente africano. Seus remanescentes arqueológicos foram identificados em 2011, culminando com a concessão do título de Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017. Em setembro de 2025, o local obteve novo amparo legal com a promulgação da Lei nº 15.203, que o declarou patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro e established diretrizes para sua preservação, sob gestão compartilhada integrando o Iphan.
Na capital baiana, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa o pioneirismo das organizações associativas da população negra. Fundada no século XIX, em Salvador, a instituição surgiu como um núcleo de socorro mútuo e amparo social. Ao longo de sua trajetória, tornou-se referência em estratégias de solidariedade comunitária para enfrentar as desigualdades impostas pelo regime escravista e seus desdobramentos históricos.
Antes do ingresso dos três novos locais, a presença brasileira na rede internacional era formada pelo Museu da Inconfidência, localizado em Ouro Preto (Minas Gerais), pelo Museu Casa da Hera, em Vassouras (Rio de Janeiro), e pelo Museu da República, situado na capital fluminense. A articulação e apresentação das candidaturas nacionais são coordenadas pela Comissão Nacional para a Unesco, vinculada ao Ministério das Relações Exteriores (MRE). Em posicionamento oficial, o governo brasileiro ressaltou que a ampliação do número de sítios reconhecidos consolida as políticas públicas de proteção ao patrimônio e reforça a valorização das contribuições africanas na construção da identidade e da memória do país.
Serviço
Iniciativa: Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas (Programa Rotas dos Povos Escravizados – Unesco)
Coordenação das candidaturas brasileiras: Comissão Nacional para a Unesco (Ministério das Relações Exteriores – MRE)
Novos locais integrantes no Brasil:
- Parque Memorial Quilombo dos Palmares / Serra da Barriga: União dos Palmares (AL) – Gestão: Fundação Cultural Palmares (FCP) / Proteção: Iphan
- Sítio Arqueológico Cais do Valongo: Região Portuária, Rio de Janeiro (RJ) – Gestão compartilhada com participação do Iphan
- Sociedade Protetora dos Desvalidos: Salvador (BA)
Outros locais brasileiros que integram a rede:
- Museu da Inconfidência: Ouro Preto (MG)
- Museu Casa da Hera: Vassouras (RJ)
- Museu da República: Rio de Janeiro (RJ)
Fonte:
gov.br / Ministério da Cultura
