OMS contraindica uso de medicamentos emagrecedores e cirurgias para crianças menores de 10 anos
Diretriz inédita foca em mudanças de comportamento e hábitos saudáveis; no Brasil, especialistas alertam para riscos de efeitos colaterais graves

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, na última quarta-feira (7 de outubro de 2026), seu primeiro guia voltado ao enfrentamento da obesidade infantojuvenil. O documento estabelece que crianças com menos de 10 anos não devem utilizar medicamentos para emagrecer, injeções redutoras de peso ou passar por cirurgias bariátricas. No Brasil, onde o excesso de peso atinge uma parcela significativa do público infantil, entidades médicas reforçam o alerta contra o uso indiscriminado dessas substâncias.
De acordo com as novas diretrizes da agência internacional, o tratamento para a faixa etária abaixo dos 10 anos deve ser centrado exclusivamente em alimentação saudável, estímulo à atividade física e suporte comportamental. A OMS aponta que ferramentas digitais, como jogos on-line de movimento e monitoramento de exercícios, podem atuar como aliadas nesse processo.
A diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, Luz María De Regil, destacou que a base da terapia não reside em intervenções farmacológicas ou cirúrgicas, mas sim em um suporte amplo que promova hábitos sustentáveis. Ela ressaltou ainda a falta de dados científicos suficientes sobre a segurança de medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 — conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras, a exemplo do Ozempic e do Mounjaro — para menores de 10 anos.
Para o grupo de 10 a 19 anos, o uso de fármacos emagrecedores só deve ser cogitado caso as intervenções comportamentais supervisionadas não apresentem resultados. Já a cirurgia bariátrica é indicada apenas para adolescentes com obesidade grave que apresentem maturidade física e psicológica, após um período mínimo de seis meses de tratamento clínico sem sucesso.
O guia também chama a atenção para a saúde mental dos pacientes. Problemas como depressão, ansiedade, baixa autoestima e dificuldades de regulação emocional costumam estar associados a hábitos sedentários e alimentação inadequada. Esse cenário é agravado pelo estigma e pelo bullying enfrentados por jovens com obesidade.
Dados do Unicef revelam que a obesidade se tornou o principal problema nutricional entre crianças em idade escolar e adolescentes no planeta, superando o baixo peso. Em 2024, o contingente de jovens de 5 a 19 anos vivendo com obesidade somava 170 milhões globalmente — sendo 70 milhões na faixa de 5 a 9 anos e 100 milhões entre 10 e 19 anos. Desde 1990, a prevalência da condição nesse grupo quadruplicou, saltando de 2% para 8%.
No cenário nacional, dados do Ministério da Saúde de 2020, referentes a crianças acompanhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apontavam que 15,9% dos menores de 5 anos e 31,7% das crianças de 5 a 9 anos apresentavam excesso de peso.
Atualmente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza a utilização de canetas emagrecedoras para o público a partir de 10 anos apenas no tratamento de diabetes tipo 2, sendo vedada a prescrição para fins estéticos.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) adverte que o uso desses medicamentos sem a devida indicação e acompanhamento médico pode acarretar sérios prejuízos à saúde, como desidratação, perda de massa muscular, pancreatite aguda, problemas na vesícula e comprometimento do crescimento e desenvolvimento corporal. A associação médica alerta ainda que o uso estético pode desencadear transtornos alimentares graves, como anorexia e bulimia, além de quadros de ansiedade e depressão ligados à autoimagem.
Fonte:
correiodobrasil.com.br / Correio do Brasil
