Mistério da nossa “segunda Lua”: missão chinesa se aproxima de Kamoʻoalewa

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Sonda chinesa intercepta asteroide Kamoʻoalewa para investigar possível origem lunar

Kamoʻoalewa fotografado a 20 quilômetros pela sonda Tianwen-2. Foto: CNSA/Xinhua

Após percorrer um bilhão de quilômetros, a missão Tianwen-2 fará análises por um ano antes de tentar trazer amostras inéditas do quase-satélite à Terra.

A missão espacial chinesa Tianwen-2 alcançou uma etapa decisiva em sua trajetória ao se posicionar a apenas 20 quilômetros do asteroide Kamoʻoalewa. Lançada em 2025, a nave viajou cerca de um bilhão de quilômetros para iniciar uma investigação direta que busca confirmar se o corpo celeste é, de fato, um fragmento desprendido da Lua. O encontro recente já viabilizou a captura das fotografias mais precisas já registradas dessa rocha espacial.

Kamoʻoalewa, a “segunda Lua” da Terra, em representação artística. Foto: Addy Graham/Universidade do Arizona

Com dimensões que variam de 40 a 100 metros de diâmetro, o objeto desponta como um dos menores componentes do Sistema Solar a receber a visita de uma missão científica. Descoberto em 2016 por um telescópio no Havaí — origem de sua nomenclatura —, o asteroide atrai o interesse dos pesquisadores devido ao seu comportamento orbital peculiar.

Embora seja popularmente chamado de “segunda Lua”, o Kamoʻoalewa não é um satélite natural da Terra, uma vez que sua órbita está atrelada ao Sol. Trata-se de um quase-satélite: sua translação pelo espaço é tão semelhante à terrestre que, sob a perspectiva do nosso planeta, gera-se a ilusão óptica de um acompanhamento contínuo. A mecânica gravitacional que rege essa configuração faz com que os dois corpos atinjam o pico de proximidade mútua em ciclos regulares de 45 anos.

A principal força motriz por trás da exploração é desvendar a gênese do asteroide. A comunidade astronômica levanta a forte hipótese de que o Kamoʻoalewa tenha sido ejetado ao espaço após o choque de um grande meteorito contra a superfície lunar, um evento colossal ocorrido entre um e dez milhões de anos no passado. Endossando essa linha de pesquisa, um artigo veiculado em 2024 na revista Nature Astronomy vinculou a origem do fragmento especificamente ao impacto formador da cratera lunar Giordano Bruno.

Para comprovar essa teoria, a Tianwen-2 utilizará a atual proximidade para conduzir cerca de 12 meses de observações contínuas, avaliando a composição geológica e a superfície do corpo celeste. As imagens de alta resolução recém-obtidas servirão como base para planejar a manobra mais desafiadora da empreitada: a tentativa de coleta física de material do asteroide.

Caso a extração e o envio de retorno sejam bem-sucedidos, as amostras passarão por exames laboratoriais na Terra. Os cientistas realizarão o cotejo da mineralogia do asteroide com rochas lunares já catalogadas, além de buscar eventuais vestígios de água. O escrutínio desses dados ajudará a elucidar as dinâmicas astrofísicas que permitem a rochas da Lua ingressarem em trajetórias paralelas à da Terra.

O atual projeto assinala a primeira expedição da China voltada à coleta de amostras em asteroides e evidencia o avanço sistemático de seu programa espacial. A iniciativa dá continuidade aos esforços iniciados pela Tianwen-1, que levou tecnologia de exploração a Marte. O cronograma do país asiático prevê ainda a execução da Tianwen-3, agendada para 2028 com a meta de resgatar solo marciano, e o lançamento da Tianwen-4 em 2030, que direcionará seus instrumentos para o sistema de Júpiter e, posteriormente, Urano.

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