Exposição “Autorretrato em Linhas Sólidas” apresenta a trajetória de Evandro Soares, em Goiânia

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Evandro Soares transforma experiência com o metal em investigação sobre desenho e espaço

Exposição no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia, reúne cerca de 50 obras que percorrem duas décadas de produção do artista baiano, da formação na serralheria à consolidação de uma linguagem geométrica própria.

Goiânia – A passagem do desenho para o espaço, a construção de formas por meio do vazio e as relações entre metal, luz e arquitetura estão no centro da exposição “Autorretrato em Linhas Sólidas”, de Evandro Soares, em cartaz até 18 de julho de 2026 no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia. Com curadoria de Agnaldo Farias, a mostra reúne cerca de 50 obras, entre desenhos, esculturas, objetos em relevo e fotografias, apresentando diferentes momentos da trajetória do artista baiano, que encontrou na experiência da serralheria o ponto de partida para uma pesquisa visual desenvolvida ao longo de duas décadas.

SERVIÇO
Exposição: “Autorretrato em Linhas Sólidas”, de Evandro Soares
Curadoria: Agnaldo Farias
Período: até 18 de julho de 2026
Horário: de segunda-feira a domingo, das 9h às 13h e das 13h30 às 17h
Local: Centro Cultural Octo Marques — Edifício Parthenon Center
Endereço: Rua 4, Centro, Goiânia (GO)
Entrada: gratuita

SAIBA MAIS…

Nascido em 1975 no povoado de Largo de Piritiba, distrito de Piritiba, na Chapada Diamantina, Evandro iniciou sua formação profissional aos 15 anos, na Metalúrgica Mota, sob a orientação de Anadiçor Mota da Cruz. O aprendizado envolvia o domínio técnico do ferro, a disciplina do trabalho e a busca por precisão, princípios que permaneceriam presentes em sua produção artística.

Ainda como aprendiz, Evandro realizou sem autorização um trabalho de solda e sofreu um acidente que quase comprometeu sua visão. O episódio integra uma trajetória marcada pela curiosidade diante dos materiais e pelo desejo de compreender, na prática, as possibilidades de transformação do metal.

Depois de abrir a própria serralheria, mudou-se para Goiânia em 2000. Na capital goiana, ampliou o contato com museus, galerias, exposições e artistas, ao mesmo tempo que continuava executando projetos em metal. Seu reconhecimento no meio artístico ocorreu inicialmente pela qualidade dos trabalhos realizados como serralheiro para ateliês e montagens expositivas.

A precisão técnica despertou a atenção de artistas como Luiz Mauro e do curador Gilmar Camilo. Em um trabalho especialmente exigente feito para Luiz Mauro, as soluções apresentadas por Evandro revelaram capacidades que ultrapassavam a execução de projetos concebidos por outras pessoas. Aos poucos, ele percebeu que o conhecimento acumulado no ofício também poderia sustentar uma investigação autoral.

Um dos primeiros trabalhos a tornar evidente essa passagem foi lembrado pelo artista Fábio Baroli. Evandro apresentou um desenho formado por um quadrado sobre o papel, cujas linhas prosseguiam para fora da superfície por meio de fios metálicos, compondo um cubo vazado. A obra reunia desenho e escultura e incorporava o espaço, a iluminação e as sombras projetadas na parede. Nela já apareciam questões que se tornariam recorrentes em sua produção: o deslocamento entre plano e volume, o desenho expandido e o vazio tratado como parte constitutiva da forma.

Sua formação ocorreu fora das escolas de arte. Evandro concluiu o ensino fundamental e dedicou parte significativa da juventude ao trabalho e ao sustento da família. Durante muito tempo, foi identificado principalmente como artesão ou serralheiro, antes que a consistência de sua pesquisa lhe assegurasse reconhecimento como artista.

Há cerca de seis anos, encerrou as atividades profissionais da serralheria para dedicar-se integralmente ao ateliê. Instalado na periferia de Goiânia, o espaço mantém ferramentas e máquinas associadas ao antigo ofício. Martelos, serras, guilhotinas e calandras continuam presentes na rotina do artista, agora empregados na elaboração de obras que investigam linha, estrutura, equilíbrio e percepção.

A geometria surgiu em sua produção como consequência do contato prolongado com projetos técnicos, desenhos construtivos e soluções espaciais. Em vez de funcionar como um sistema rígido, ela aparece em formas que parecem se deslocar e modificar conforme a incidência da luz, o ponto de observação e a relação com o ambiente.

As esculturas aproximam-se da tradição construtiva brasileira, especialmente pelo emprego do metal e pela economia de elementos. Há afinidades com a obra de Amílcar de Castro, embora os procedimentos sejam distintos. Enquanto o escultor mineiro explorou o corte e a dobra de grandes chapas, Evandro trabalha principalmente com linhas e estruturas que delimitam o espaço sem preenchê-lo, incorporando transparências, sombras e intervalos à composição.

O vazio, nesse conjunto, não representa ausência. Ele organiza as formas e permite que as esculturas estabeleçam relações variáveis com a arquitetura. À medida que o visitante se movimenta, linhas se cruzam, volumes aparentes se desfazem e novas configurações surgem. A luz amplia esse processo ao projetar sobre paredes e superfícies desenhos que não existem de maneira fixa.

A mesma lógica orienta os trabalhos sobre papel. Os desenhos não são apresentados apenas como esboços preparatórios para esculturas, mas como obras autônomas. Neles, linhas, tensões e deslocamentos sugerem volumes e movimentos, aproximando papel e aço como suportes diferentes de uma mesma construção visual.

A exposição também incorpora fotografias relacionadas ao interesse de Evandro pela arquitetura. Durante viagens para apresentar seus trabalhos em diferentes cidades brasileiras, o artista passou a registrar edifícios e estruturas urbanas. Essas imagens contribuíram para ampliar suas pesquisas sobre bidimensionalidade, proporção e organização espacial.

“Autorretrato em Linhas Sólidas” foi viabilizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, operacionalizada pela Secretaria de Estado da Cultura de Goiás.

 

Fábio Rocha Pina

E-mail: fabio@teatral.com.br

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