Ministro das Relações Exteriores da Itália defende reforma da cidadania em visita ao Museu da Imigração

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Durante passagem pela capital paulista, Antonio Tajani reiterou críticas ao uso instrumental do passaporte e questionou o interesse de descendentes pelas origens

O vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, defendeu as mudanças adotadas em seu governo que restringiram a transmissão da cidadania por descendência (*iure sanguinis*). Em declarações concedidas à imprensa no Museu da Imigração, o chanceler repetiu argumentos controversos utilizados desde 2025 para justificar a nova legislação, afirmando que o objetivo é “defender a italianidade” e a “seriedade de ser cidadão italiano”.

A manifestação ocorreu após o chanceler ser questionado sobre a aparente contradição entre exaltar os descendentes como “embaixadores” da Itália no exterior e impor restrições legais ao reconhecimento da cidadania. Na véspera, durante encontro com a coletividade italiana em São Paulo, Tajani havia afirmado que qualquer pessoa que viva no exterior e sinta orgulho de suas raízes atua como um representante do país, mesmo sem dispor do passaporte.

Diante do questionamento da imprensa, gravado em vídeo pela revista *Comunità Italiana* e disseminado em redes sociais, o ministro sustentou que ser cidadão italiano envolve acreditar na língua, nos valores e na identidade do país. Nesse contexto, recuperou analogias empregadas na apresentação da reforma, declarando que o passaporte não deve servir apenas para férias ou compras em Miami. O chanceler também recorreu à expressão “Black Friday” para qualificar o mercado de serviços voltado ao reconhecimento da cidadania.

Como desdobramento de sua argumentação, Tajani acrescentou um novo questionamento sobre o vínculo temporal com as origens. Segundo sua linha de raciocínio, quem realmente se sentia italiano poderia ter buscado o reconhecimento anteriormente, de modo que o abandono da italianidade ao longo de gerações indicaria falta de interesse pela Itália.

A resposta gerou repercussão sensível em razão da história recente do processo nas instituições consulares sul-americanas. Críticos das declarações apontaram que muitos descendentes efetivamente buscaram o reconhecimento oficial muito antes das mudanças legislativas, mas permaneceram submetidos a longas listas de espera e prazos consulares que, em determinados períodos, estenderam-se por anos. A argumentação ministerial não contemplou essa distinção operacional das filas consulares.

O episódio ocorreu em meio a uma missão oficial de forte apelo econômico liderada por Tajani na América do Sul, que integrou delegação com mais de cem empresas italianas e representantes de entidades como Confindustria, Ice, Sace e Simest para impulsionar exportações e investimentos. Em artigos oficiais divulgados durante a viagem, a Farnesina destacou que o Brasil abriga a maior comunidade de ítalo-descendentes do mundo, estimada em cerca de 32 milhões de pessoas, e apontou o turismo das raízes como eixo estratégico.

No mesmo período, conselheiros do Comites de São Paulo entregaram ao ministro uma carta de protesto formal contra as restrições à cidadania, documento que não recebeu resposta pública imediata durante a agenda. A visita ao Museu da Imigração, instalado na antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás — local histórico de acolhimento a fluxos migratórios —, conferiu maior simbolismo ao debate sobre a preservação e a ruptura da identidade italiana ao longo das gerações.

A discussão ganha complexidade ao esbarrar em fatores históricos como o impacto do Estado Novo e da Segunda Guerra Mundial, períodos em que restrições legais e o contexto geopolítico adverso impuseram limitações ao uso público da língua e das manifestações culturais italianas no Brasil. Décadas mais tarde, a digitalização de arquivos e o avanço das comunicações viabilizaram a reconstrução genealógica por parte de descendentes, impulsionando o fenômeno contemporâneo da busca pelas origens.

Ao encerrar sua passagem pelo Museu da Imigração, Tajani manteve a sustentação política da reforma legislativa, deixando em aberto a convergência entre o descendente exaltado como patrimônio cultural e econômico e aquele efetivamente integrado à comunidade jurídica pelo Estado italiano.


Fonte: insieme.com.br / Revista Insieme

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