Matriz de São Bartolomeu reabre em Ouro Preto após restauração estrutural e artística

Templo barroco construído em 1721 recuperou sua estrutura, bens artísticos e imagens sacras, entre elas uma escultura atribuída a Aleijadinho
Ouro Preto (MG) – A Igreja Matriz de São Bartolomeu, uma das mais antigas de Minas Gerais, voltou a receber celebrações religiosas e visitantes em 7 de julho de 2026, após permanecer fechada desde 2019. A reabertura ocorreu com uma procissão, apresentação do Coral de Itabirito e missa acompanhada por moradores, representantes da paróquia, autoridades e visitantes.
Construída em 1721, durante o período barroco, a igreja está localizada no distrito de São Bartolomeu, em Ouro Preto. O imóvel é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde a década de 1960 e faz parte do conjunto histórico do distrito, protegido pelo município desde 2007.

A recuperação foi executada em três etapas pelo Instituto Joaquim Artes e Ofícios e recebeu aproximadamente R$ 7,6 milhões. Os trabalhos incluíram intervenções emergenciais, restauração arquitetônica e conservação dos bens artísticos incorporados à edificação.
A deterioração da matriz era acompanhada pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) desde 2003. A ação do tempo e a ausência de medidas adequadas de conservação provocaram infiltrações, apodrecimento de pilares e danos em outros elementos de madeira responsáveis pela estabilidade do prédio.
A situação também comprometia a segurança do templo. A rede elétrica chegou a ser desligada pela própria comunidade devido ao risco de incêndio. Para proteger os forros artísticos, expostos à chuva e a vendavais, o Iphan instalou coberturas provisórias antes do início da restauração integral.
Durante a retirada do revestimento das paredes, foi constatado que cerca de 70% dos contraventamentos da estrutura estavam comprometidos. As peças, responsáveis por auxiliar na sustentação do edifício, precisaram ser substituídas. As intervenções também revelaram pinturas até então encobertas nos altares e em outros elementos decorativos da matriz.
Restauração em três etapas
As primeiras obras emergenciais começaram em dezembro de 2022 e tiveram duração de dez meses. Nessa fase, foram empregados aproximadamente R$ 1,58 milhão para conter infiltrações, estabilizar a estrutura e recuperar sistemas básicos da igreja.
A segunda etapa recebeu cerca de R$ 2,78 milhões e concentrou-se na conclusão da restauração arquitetônica. Na terceira fase, aproximadamente R$ 3,27 milhões foram destinados à conservação dos bens artísticos e dos elementos integrados ao templo.
Entre os objetos preservados está um sino esculpido em madeira, instalado na torre esquerda da igreja e considerado uma peça rara. A restauração também alcançou altares, pinturas, forros e outros componentes históricos e artísticos do edifício.
Imagens sacras retornam aos altares
Com a conclusão das obras, a matriz recebeu de volta 11 imagens sacras do século XVIII, restauradas pela equipe da Fundação de Arte de Ouro Preto (Faop). Entre elas está uma representação de Nossa Senhora do Carmo atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Também retornaram ao templo as imagens de São João Nepomuceno, Santa Efigênia, Sant’Ana, Nossa Senhora do Pilar, São Benedito e Nossa Senhora das Candeias, além de um Crucificado e de uma representação do Divino Espírito Santo.
Recursos e preservação do patrimônio
A restauração foi realizada por meio do Programa Minas para Sempre. Os recursos foram gerenciados pelo Semente, núcleo do Ministério Público voltado ao incentivo de projetos sociais e ambientais, e tiveram origem em medidas compensatórias, ações de combate à lavagem de dinheiro e recuperação de impostos sonegados.
Lançado pelo MPMG em 2023, o Programa Minas para Sempre destinou, ao longo de quatro fases, mais de R$ 68 milhões à recuperação de 56 bens culturais em 30 municípios de Minas Gerais.
Para o promotor de Justiça Marcelo Maffra, coordenador estadual das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural, a entrega recupera não apenas a estrutura física da igreja, mas também a memória coletiva, os saberes construtivos e as práticas culturais e religiosas ligadas ao templo.
O pároco Harley Carlos de Carvalho Lima relacionou a retomada das atividades à renovação da vida comunitária. Para os moradores, a reabertura devolve ao distrito um espaço de fé, convivência e preservação de uma história iniciada há mais de três séculos.
