“Limítrofe” retorna a Niterói com apresentação gratuita e debate sobre saúde mental

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Espetáculo de Oscar Calixto mistura drama, humor e poesia para abordar sofrimento psíquico, transtornos de personalidade e exaustão emocional em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos; sessão única acontece em 5 de setembro, às 20h

 

“Limítrofe” volta a Niterói no próximo sábado, 5 de setembro, às 20h, para uma apresentação única e gratuita na Sala Nelson Pereira dos Santos. Com texto de Oscar Calixto e direção de Daniel Dias da Silva e Anderson Cunha, o espetáculo aborda saúde mental, sofrimento psíquico e exaustão emocional a partir do encontro de três personagens levados, por diferentes circunstâncias, ao limite.

A história se passa no alto de um prédio, onde uma bailarina, um ator e um escritor se encontram quando atravessam, cada um à sua maneira, um momento de profundo limite emocional. Os três chegam ao local com a intenção de tirar a própria vida, mas a convivência inesperada entre desconhecidos, marcada por conflitos, divergências e reflexões sobre a existência, transforma o rumo daquela noite.

São três personagens, três histórias e três maneiras distintas de estar no limite. A partir desse encontro, o espetáculo confronta diferentes formas de enxergar a vida e o sofrimento, trazendo questões filosóficas e existenciais para a experiência concreta de pessoas muito diferentes entre si e conduzindo a trama a um desfecho surpreendente.

Considerada uma “dramédia”, por combinar elementos do drama e da comédia, “Limítrofe” utiliza também a poesia para se aproximar de temas como transtornos de personalidade, impulsividade, sofrimento psíquico e desgaste emocional. A montagem propõe uma reflexão sobre os julgamentos apressados diante do sofrimento do outro e sobre a forma como a sociedade contemporânea tem lidado com questões relacionadas à saúde mental.

Entre os assuntos presentes na discussão está o transtorno de personalidade borderline (TPB), também conhecido como transtorno de personalidade limítrofe. Para Oscar Calixto, porém, as questões levantadas pela peça alcançam também as condições de vida que favorecem a exaustão emocional no mundo contemporâneo.

Nesse contexto, o autor chama atenção para o impacto de uma rotina atravessada pelo excesso de informações, pela presença permanente das telas e pela velocidade das relações mediadas pela tecnologia.

“Num mundo cheio de telas e de milhares de informações por dia, é importante saber dosar com equilíbrio o uso da tecnologia, filtrar um pouco as informações e abrir esses espaços de contemplação”, afirma.

Calixto relaciona essa dinâmica à naturalização de comportamentos agressivos nas redes sociais. Comentários depreciativos, ataques, manipulações e julgamentos constantes acabam incorporados ao cotidiano de tal maneira que aquilo que deveria provocar estranhamento passa a ser percebido como parte normal das relações.

“Estamos ‘normalizando’ tudo isso porque estamos nos tornando, como diria o educador e psicólogo francês Pierre Weil, seres ‘normóticos’”, observa.

É nesse ponto que o autor aproxima a discussão de “Limítrofe” do conceito de normose, associado aos trabalhos de Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Roberto Crema. O termo descreve hábitos, crenças e comportamentos socialmente aceitos como normais, embora possam produzir sofrimento, perda de sentido ou consequências prejudiciais para indivíduos e coletividades.

Para Calixto, interromper completamente essa engrenagem pode parecer inviável diante de uma estrutura que faz parte do cotidiano e oferece continuamente novos estímulos. O caminho possível estaria na construção de uma relação mais consciente com essa realidade.

A reflexão proposta pelo espetáculo passa, portanto, também pelos modos de vida, pelas relações sociais, pela velocidade cotidiana e pelos mecanismos de pressão que podem contribuir para o sofrimento emocional. Ao levar essas questões ao teatro, “Limítrofe” procura abrir um espaço de escuta e discussão em contraste com a rapidez e a superficialidade que marcam parte das interações contemporâneas.

Para Calixto, essa mudança exige múltiplos caminhos.

“Filosoficamente, resgatar o tempo da contemplação e do encontro genuíno. Psicologicamente, cultivar sentido, presença e vínculos empáticos. Psiquiatricamente, alinhar recursos clínicos com práticas de autocuidado e políticas públicas de suporte”, afirma.

A proposta, segundo o autor, não é negar a realidade contemporânea nem imaginar uma fuga possível de suas transformações. Trata-se de encontrar formas de preservar espaços de silêncio, presença e cuidado em meio à aceleração.

“Não se trata de ‘escapar da realidade acelerada’, mas de instaurar pequenas zonas de resistência, de silêncio, de escuta e de cuidado mútuo que nos permitam viver como sujeitos e não como engrenagens de uma máquina apressada”, completa.

Treze anos até chegar aos palcos

A concretização de “Limítrofe” também carrega uma longa história. Segundo Oscar Calixto, foram 13 anos entre a concepção do trabalho e sua chegada ao palco, período em que o autor buscou formas de viabilizar uma produção que considerasse adequada à dimensão do tema.

“Limítrofe para mim é o resultado da união de esforços. Demorei 13 anos para vê-lo nos palcos porque não queria fazer de qualquer modo”, conta.

Durante esse período, Calixto buscou apoio para levar o projeto adiante e tentou, inclusive, por dois longos períodos, obter incentivo da indústria farmacêutica. Uma das negociações chegou perto de ser concretizada em 2016.

O projeto começou efetivamente a ganhar forma a partir de um reencontro com Raphael Najan e Barbara Reis, quando surgiu uma possibilidade concreta de iniciar a produção do espetáculo.

Para o autor, levar “Limítrofe” ao palco significou também abrir espaço para uma discussão que considera urgente e necessária.

“Hoje, posso dizer que isso significa a quebra de tabus e a abertura para a discussão de um assunto urgente e necessário, que nasce como fruto de uma relação de confiança, compromisso e seriedade de três artistas que desejavam colocar no palco uma história que conscientizasse a sociedade sobre os males do nosso século”, declarou.

Ao combinar entretenimento e reflexão, “Limítrofe” utiliza drama, humor e poesia para olhar para a complexidade de ser humano e para aquilo que acontece quando diferentes pessoas, com histórias e conflitos particulares, chegam às próprias fronteiras emocionais.

A apresentação acontece na Sala Nelson Pereira dos Santos, na Avenida Visconde do Rio Branco, 880, em Niterói. A classificação indicativa é de 16 anos e a entrada é gratuita. Os ingressos serão distribuídos no próprio local uma hora antes do início do espetáculo.

Serviço

Limítrofe
Data: 5 de setembro, sábado
Horário: 20h
Local: Sala Nelson Pereira dos Santos
Endereço: Av. Visconde do Rio Branco, 880 – Niterói
Classificação: 16 anos
Entrada gratuita: retirada de ingressos no local, uma hora antes da apresentação.

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