Encontro em Belo Horizonte consagra a cultura camponesa como eixo da Reforma Agrária Popular
Sexta edição estadual reuniu 15 mil pessoas, comercializou dezenas de toneladas de alimentos e abrigou apresentações de grandes nomes da música nacional na capital mineira.

A centenária Serraria Souza Pinto, edifício histórico tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais desde 1981, serviu de cenário no último final de semana para a 6ª edição da Feira Estadual da Reforma Agrária, em Belo Horizonte. Localizado ao lado do viaduto Santa Tereza, o espaço cultural abrigou a articulação entre produção camponesa, saberes tradicionais e manifestações artísticas do campo e da cidade, reunindo agricultores e agricultoras de diferentes regiões mineiras, como o Triângulo Mineiro, o Vale do Rio Doce e o Jequitinhonha.
Organizada pelo Movimento Sem Terra (MST), a iniciativa colocou a cultura no centro do debate sobre a soberania alimentar e territorial. Para Dandara d’Araça, coordenadora nacional do Coletivo de Cultura do MST, o evento reflete a compreensão de que a produção simbólica não se dissocia da materialidade da vida. A cultura, ela está no todo do que é a Reforma Agrária Popular, pontuou a dirigente, reforçando que o movimento enxerga o projeto de redistribuição de terras como uma transformação cultural em sua totalidade.
Sob o lema Cultivar a Terra, Defender o Brasil, a programação artística distribuiu-se ao longo de três dias em eixos temáticos que abarcaram blocos carnavalescos, cirandas, expressões do hip-hop, vertentes da música mineira e canções latino-americanas. A estrutura do evento permitiu que o público observasse o cotidiano dos acampamentos e assentamentos não apenas no palco principal, mas também nos corredores, onde feirantes expuseram mercadorias acompanhadas de relatos sobre a conquista da terra, enquanto o cuidado infantil se organizava por meio das atividades dos sem-terrinha e das cirandas.
O encerramento da programação, integrado ao bloco Beat da Terra, foi marcado por fortes manifestações políticas de artistas convidados. A rapper Sarah Sampp subiu ao palco durante um alerta de tempestade severa emitido pela Defesa Civil de Belo Horizonte, aproveitando o momento para correlacionar a emergência climática aos desafios enfrentados pelas classes trabalhadoras. A artista defendeu a indissociabilidade entre o fazer artístico e o posicionamento ideológico, lembrando que os criadores de arte são, antes de tudo, sujeitos políticos inseridos na sociedade.
Em seguida, a cantora, compositora e atriz Linn da Quebrada conduziu um espetáculo de forte teor político, acompanhada pela percussionista Dominique Vieira e pela DJ Cais Niara. Durante a performance, a disc-jóquei compartilhou suas memórias de infância no acampamento Zumbi dos Palmares, no interior paulista, celebrando a trajetória que a levou a dividir o palco com grandes nomes da música contemporânea.
Ao término das atividades, o balanço oficial apontou resultados expressivos para o movimento social: 50 toneladas de alimentos comercializados, quatro toneladas de mantimentos doados a 20 territórios da Região Metropolitana de Belo Horizonte e um público estimado em 15 mil visitantes. Para os organizadores, a expressividade desses números consolida a arte coletiva e a solidariedade como ferramentas indispensáveis para a reformulação das bases sociais e do modo de vida das comunidades tradicionais e camponesas.
Fonte: mst.org.br / MST
