Debates sobre democracia na América Latina e combate à misoginia marcam conferência internacional em Camaçari
Evento global reúne centenas de lideranças sindicais da educação para discutir sobrecarga de trabalho, saúde mental e precarização docente sob a perspectiva de gênero.

A cidade de Camaçari, na Bahia, sedia a 5ª Conferência Mundial de Mulheres da Internacional da Educação, evento que mobiliza mais de 360 lideranças sindicalistas oriundas de 57 países. Desenvolvida sob o lema “Unidas na luta pela justiça de gênero: educar o mundo, liderar a mudança e em defesa da democracia”, a programação engloba plenárias, sessões paralelas e espaços de articulação coletiva.
Durante o segundo dia de atividades do encontro internacional, realizado em 18 de setembro de 2026, o centro das discussões recaiu sobre o apagão de professores e professoras analisado pela ótica de gênero, a preservação da saúde física e mental das trabalhadoras da sala de aula e a erradicação da misoginia nos ambientes escolares.
As participantes aprofundaram a análise sobre os fatores que impulsionam a escassez de docentes no cenário contemporâneo. De acordo com os debates, grande parte das educadoras lida com jornadas duplas ou triplas, acumulando as exigências da docência com o trabalho reprodutivo e de cuidado não remunerado exercido no âmbito doméstico.
“Não ter creches para poder deixar nossos filhos afasta algumas mulheres. Vivemos hoje uma sobrecarga que gera esse burnout, um adoecimento mental”, pontuou Marília Cibeli, secretária de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).
A dirigente também chamou atenção para os obstáculos enfrentados na trajetória sindical e acadêmica: “Às vezes, para se tornar liderança sindical, você tem que abandonar o princípio de uma carreira, mestrado, doutorado. Isso impacta financeiramente, nós precisamos fornecer o suporte necessário para incentivar a presença de mulheres nessas posições de gestão. Porque essas mulheres vão enfrentar também o caráter estrutural do patriarcado, que vai tentar tirar elas de lá”.
Como forma de combater a precarização da categoria, a delegação do Brasil enfatizou a relevância de fortalecer os concursos públicos e de implementar planos de carreira atrativos, que transcendam a simples garantia do piso salarial. O grupo posicionou-se firmemente em defesa da educação pública e laica, rechaçando o avanço da privatização e os ataques morais direcionados a educadores, com especial atenção a pessoas LGBTQIA+, negras, pardas e indígenas.
Na plenária de encerramento do dia, o foco voltou-se para os desafios enfrentados pelos países latino-americanos na preservação institucional. A mesa foi conduzida por Gabriela Bonilla, coordenadora regional da Internacional da Educação para a América Latina (IEAL).
O painel contou com as contribuições de Fátima Silva, presidenta da CNTE; Gilda Montero, presidenta da Associação Nacional de Educadores e Educadoras da Costa Rica (ANDE); Sonia Alesso, secretária-geral da Confederação dos Trabalhadores da Educação da República da Argentina (CTERA); e Isabel Olaya, vice-presidenta do Comitê Regional da IEAL.
As expositoras concordaram que a desigualdade de gênero ultrapassa ações individuais, configurando-se como uma estrutura dotada de dimensões tecnológicas, digitais, sociais e econômicas que historicamente priorizam os homens.
Para Fátima Silva, a atuação das entidades sindicais na região extrapola as pautas corporativas tradicionais: “Na América Latina, nosso sindicato entende que a luta sindical é também a luta de classes, que precisamos olhar para os problemas amplos dos/as trabalhadores/as e da sociedade. A nossa rede discute economia, política e poder. Buscamos formar e encorajar mulheres a superar dificuldades”.
Na mesma linha, Sonia Alesso resgatou o compromisso pedagógico e político das organizações: “Nosso sindicalismo discute não só salários, mas a educação como um todo. Qual educação queremos para nossos meninos e meninas? Que projeto libertário queremos para alcançar uma sociedade mais justa e igualitária? Para a América Latina, não há possibilidade de envolvimento sindical se não houver envolvimento na pedagogia voltada para o bem-estar de nossos povos”.
As informações completas sobre a programação da conferência podem ser consultadas diretamente no portal oficial da Internacional da Educação.
Fonte: sinprodf.org.br / SINPRO-DF
