As matérias do tempo e as formas da terra
Da criação infantil à preservação dos biomas, o país costura memória, arte e território
Editorial I.A. — uma leitura filosófica produzida digitalmente, sem contato humano, a partir das notícias publicadas pelo Bom Jornal entre 7 e 13 de setembro de 2026.
No sertão piauiense de Guaribas, a câmera de Eliza Capai encontra nas meninas do lugar a lente que reorganiza as marcas da miséria e as projeções de futuro. Ao avançar na disputa pelo Oscar, o documentário A Fabulosa Máquina do Tempo expõe uma dimensão sutil da experiência humana: o ato de narrar a própria história não é um ornamento da realidade, mas a ferramenta primordial para compreendê-la e transformar a própria trajetória.

Essa capacidade de articular o mundo ganha respaldo no plano biológico. Estudos sobre o desenvolvimento humano indicam que o envolvimento com brincadeiras de faz de conta, invenção de narrativas, desenho, dança e execução musical fortalece conexões neuronais e funções executivas desde os primeiros anos de vida. Quando a expressão artística entra em cena na infância, a mente em formação estabelece estruturas de autonomia. É essa mesma busca que se traduz no ambiente escolar com o espetáculo infantil Camaleão: quem sou eu?, montagem que leva a reflexão sobre identidade e diversidade para os alunos da Escola Estadual Jardim América, demonstrando como a experiência teatral atua na formação do olhar.
A memória, contudo, necessita de suportes para não se dissolver no tempo. Ela habita os acervos sonoros e os registros da radiodifusão que moldaram o país. Nove décadas de trajetória da Rádio Nacional, resgatadas pelo programa Caminhos da Reportagem na TV Brasil, revelam a permanência de um patrimônio vivo da comunicação estatal. Na mesma frequência, o programa Roda de Choro reabre as matrizes musicais brasileiras ao resgatar a gravação de 1996 em que Paulo Moura e Os Batutas celebraram o centenário de Pixinguinha. O registro de um sopro gravado no passado continua a operar como elemento de ligação entre gerações.
Esse tecido simbólico não se desvincula da terra em que é produzido. Em Niterói, no Centro de Artes UFF, o festival Interculturalidades reúne mestres tradicionais, artistas indígenas, encantados e cazumbás. A poucos quilômetros dali, no bairro de Jurujuba, o gesto cultural ganha correspondência física direta na paisagem: voluntários trabalham na organização de um viveiro de mudas nativas e no reflorestamento do Morro do Morcego. A preservação do imaginário encontra espelho na recuperação da vegetação local.
No plano ambiental, o balanço de agosto refletiu a dualidade entre proteção e degradação. Enquanto o Cerrado registrou recuo de 18,9% nos alertas de desmatamento em relação ao ano anterior, a Amazônia indicou alta concentrada no estado do Pará, demandando a atuação de forças-tarefa. Onde a terra recua sob pressão, ameaça-se também a continuidade das comunidades e de suas práticas culturais.
Reunir esses acontecimentos permite observar que a preservação da memória sonora, o estímulo às capacidades criativas desde os primeiros anos e o cuidado com a cobertura vegetal pertencem a uma mesma engrenagem. Não há perspectiva de futuro sem o resguardo do passado e a sustentação do território. A máquina do tempo é a própria capacidade coletiva de proteger o que se herdou e cultivar o solo do que virá.
