Três novas espécies de algas recebem nomes de mulheres negras em pesquisa liderada por brasileira

Ciência e Tecnologia

Descoberta conduzida pela bióloga Priscila Barreto de Jesus, em parceria com Harvard, identifica três espécies inéditas do gênero Hypnea e presta homenagem a Angela Davis, Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo.

Uma equipe internacional de biólogos identificou três novas espécies de algas vermelhas do gênero Hypnea e decidiu nomeá-las em homenagem a três mulheres negras cujas trajetórias influenciaram gerações. A pesquisa, publicada em março de 2023, foi liderada pela brasileira Priscila Barreto de Jesus, pós-doutora, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e nascida em Salvador.

As espécies foram oficialmente registradas como Hypnea davisiana, Hypnea djamilae e Hypnea evaristoae, reconhecendo respectivamente a importância da ativista Angela Davis, da filósofa Djamila Ribeiro e da escritora Conceição Evaristo. A iniciativa simboliza o reconhecimento da presença negra na ciência e destaca a influência intelectual dessas três referências brasileiras e internacionais.

Conceição Evaristo, por Rafael Arbex/Folhapress. Angela Davis, por Deana Lawson. Djalmila Ribeiro, por Luís Crispino/Claudia

A confirmação das espécies exigiu análises genéticas detalhadas. Embora semelhantes na aparência, as algas só puderam ser diferenciadas por meio do sequenciamento genético realizado com apoio de laboratórios da Universidade de Harvard, devido à dificuldade de distinguir suas características morfológicas. O estudo combinou técnicas de filogenômica e consultas a herbários internacionais, incluindo exemplares preservados há mais de um século.

As amostras revelaram também a diversidade geográfica dessas espécies. Hypnea evaristoae tem registro de coleta na Índia; Hypnea djamilae aparece em materiais provenientes da Coreia do Sul e do Japão; e Hypnea davisiana corresponde a um exemplar histórico coletado em 1922 no Taiti, na Polinésia Francesa.

Prof. Dra. Priscila Barreto de Jesus

As algas do gênero Hypnea têm grande interesse econômico por produzirem carragenana, um polissacarídeo utilizado como espessante e estabilizante pela indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética. A descoberta de espécies inéditas contribui para a compreensão da biodiversidade marinha e pode ampliar o conhecimento sobre as aplicações biotecnológicas desse grupo de organismos.

A homenagem também reflete a trajetória pessoal de Priscila Barreto de Jesus. A pesquisadora relata que sua descoberta identitária como mulher negra ocorreu ao ingressar na universidade, ao perceber o contraste entre seu ambiente de origem e os espaços científicos dominados por homens brancos. Leituras de obras de Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo e estudos sobre Angela Davis foram fundamentais nesse processo, o que motivou a escolha simbólica dos nomes.

Além da atuação acadêmica, Priscila desenvolve projetos de divulgação científica, como @algasporelas e @democratizando.saberes, voltados à popularização da botânica e ao incentivo à diversidade racial e de gênero na ciência.

A descoberta, publicada próxima ao Dia Internacional da Mulher, reafirma a importância da representatividade e evidencia o impacto da produção científica conduzida por pesquisadoras negras no Brasil e no mundo.

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