CRÍTICA: O Otimismo que Sustenta o Voo: Presença, Memória e Encontro no Teatro de David Pinheiro
CRÍTICA: Espetáculo “É o Otimismo que Faz o Besouro Voar!”, de David Pinheiro
O espetáculo “É o Otimismo que Faz o Besouro Voar!” apresenta-se sobretudo como um acontecimento e experiência cênica ancorados na presença de David Pinheiro, em torno da qual se organizam e adquirem sentido o enredo, a forma e o encontro com a plateia, constituindo-se, em última instância, como uma realização profundamente centrada em sua figura, que simultaneamente concentra a força motriz e delimita o horizonte expressivo da obra.
O ator demonstra domínio do palco, comunicação direta e calor humano constantes, sustentando sozinho a dinâmica do monólogo. Seu carisma, a vivacidade do olhar e a energia generosa com que se oferece à plateia criam imediata empatia. Há prazer evidente em atuar, e essa alegria se converte em força dramatúrgica, aproximando público e cena. Entre o registro confessional do stand-up e a construção de um personagem, David Pinheiro transita com naturalidade, fundindo sua persona artística à figura proposta, o que confere unidade e presença ao espetáculo.
Há também no espetáculo um discreto tom nostálgico, sustentado pela presença da personagem Armando Volta, figura clássica do universo televisivo de David Pinheiro. Em vários momentos, ator e personagem parecem se sobrepor, movimento natural e até esperado por parte do público, que reconhece nessa fusão um traço de autenticidade. Surgem ainda menções afetivas à própria trajetória, com referências a nomes marcantes de sua história artística, como Chico Anísio, por vezes lembrado e brevemente evocado em cena de maneira leve e despretensiosa. Esse conjunto confere ao espetáculo uma camada de memória e reconhecimento que dialoga diretamente com espectadores movidos por essa identificação, sem, contudo, criar barreiras ou estranhamento para aqueles que não compartilham das mesmas referências.
A montagem, concebida em formato de stand-up, de acordo com a produção, apresenta dramaturgia de Ivan Jaf inspirada em textos do Barão de Itararé, originalmente publicados durante a Segunda Guerra Mundial. As crônicas, marcadas por observações sociais e humor, surgem organizadas em blocos independentes, privilegiando a comunicação imediata. O texto, mais próximo da oralidade popular e de ideias reconhecíveis, encontra eficácia sobretudo quando apoiado na trajetória e na força comunicativa do intérprete, alcançando identificação com o público amplo.
A encenação adota recursos simples, com cenário minimalista, iluminação alegórica e trilha sonora utilizada como elemento de ligação entre os fragmentos textuais. A música, construída a partir de recortes de canções e efeitos sonoros comuns, populares e reconhecíveis, funciona como apelo direto ao público, que por momentos se envolve e até acompanha em coro. Contudo, seu uso reiterado revela-se muitas vezes desnecessário, operando menos como escolha estética e mais como expediente de sustentação cênica, destinado a recompor as descontinuidades de um texto que carece de vínculo orgânico e cadência entre suas partes. Ainda assim, o recurso preserva a progressão do espetáculo e garante sua continuidade perceptiva.
A direção artística de Maria Rita Rezende assume deliberadamente um lugar de contenção, encontrando justamente em sua discrição tanto seu maior mérito quanto seu principal desencontro. Ao conceder ampla liberdade ao ator, a encenação se ancora na presença e na propriedade com que ele conduz a cena, mesmo quando se evidenciam as fragilidades de uma ação cênica menos consolidada e de um texto construído por recortes, de articulação ainda irregular. A estrutura organiza-se pela sucessão de blocos interligados por intervenções musicais, privilegiando a experiência, a comunicação e o magnetismo do intérprete como eixo da cena, mais do que uma arquitetura dramatúrgica rigorosamente estruturada.
O espetáculo assume com clareza sua matriz de stand-up e, em determinados momentos, desloca-se suavemente para zonas de teatralidade simples e despretensiosa, sem abandonar sua vocação comunicativa direta.
A fragmentação da dramaturgia e a progressão cênica irregular revelam limites estruturais, perceptíveis sobretudo na articulação entre as partes que o compõem, ainda que o trabalho encontre aproximação com o público por vias diretas e afetivas.
Em certos trechos, contudo, o ritmo se dilata excessivamente, produzindo uma sensação de estagnação, como se a cena orbitasse em torno de si mesma sem avançar. Nesses momentos, a repetição de fórmulas associadas ao discurso motivacional aproxima o espetáculo de um repertório previsível, apoiado em lugares-comuns da autoajuda, o que enfraquece a tensão dramática e reduz a potência de descoberta que a cena por vezes anuncia.
Mas há delicadeza no modo como o espetáculo se constrói e uma sinceridade que se manifesta menos na solidez formal e mais na presença viva do intérprete. Para grande parte da plateia, a experiência se sustenta no apelo nostálgico e na comunicação calorosa de David Pinheiro que, mesmo diante das fragilidades estruturais, conduz a cena com generosidade e carisma, deixando como impressão final uma relação afetiva e acolhedora com o público, na qual o espetáculo encontra seu sentido mais marcante.
Em um plano mais profundo, o espetáculo parece instaurar um campo de reconhecimento mútuo entre obra e plateia, no qual não se trata apenas de ver, mas de ser visto. O espetáculo encontra o seu público na mesma medida em que o público encontra, ali, uma forma sensível de si, como se a cena operasse enquanto espaço de espelhamento e ressonância afetiva. Minha impressão é que trabalhos dessa natureza se justificam não somente por seus dispositivos estéticos ou por sua engenharia técnica, mas por sua função humana e simbólica. O “otimismo” que faz o besouro voar transcende a metáfora dramática e se revela como postura existencial do próprio intérprete e de sua produção, ainda orientados por uma crença no teatro como lugar possível de sentido, presença e partilha. Nesse horizonte, o espetáculo não apenas se apresenta, mas se oferece, e é nesse gesto que, por instantes, alcança a plateia, instaurando breves zonas de comunhão, reconhecimento e esperança, discretas, porém necessárias.
Talvez, no fim, seja justamente esse otimismo, frágil e persistente, que ainda faz o teatro, como o besouro, continuar voando.
Fábio Rocha Pina
13 de fevereiro de 2026

