Novos editais de transporte coletivo na Grande Curitiba projetam reorganização de linhas e enfrentam suspensões administrativas
Processos licitatórios da URBS e da AMEP incluem cortes de itinerários, expansão da frota elétrica e previsão de modal sobre trilhos na região metropolitana

Os processos de licitação para o sistema de transporte público em Curitiba e nos municípios de sua Região Metropolitana passam por entraves administrativos e revisões técnicas diante das mudanças operacionais propostas. Geridos de forma compartilhada entre a Urbanização de Curitiba S.A. (URBS), no âmbito municipal, e a Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (AMEP), na esfera estadual, os editais preveem alterações na malha de ônibus, secionamento de trajetos periféricos e a integração de novos modais, enquanto enfrentam determinações de paralisação emitidas pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).
No âmbito municipal da capital paranaense, a Concorrência nº 001/2026 foi publicada pela URBS em agosto de 2026, prevendo a divisão do sistema em cinco lotes por um período de 15 anos. O contrato estabelece uma remuneração estimada em R$ 18,8 bilhões e exige R$ 3,9 bilhões em investimentos das futuras concessionárias, incluindo a aquisição de 250 ônibus elétricos e a implantação de integração temporal. O certame, no entanto, foi suspenso após questionamentos sobre as linhas operadas em conjunto com a rede metropolitana. Em 28 de outubro de 2026, o TCE-PR proferiu nova decisão de suspensão, fundamentada na necessidade de analisar pontos atrelados a riscos contratuais, produtividade da frota e alterações no edital.
Por sua vez, a licitação organizada pela AMEP (Concorrência nº 06/2026), voltada ao atendimento intermunicipal de 29 municípios paranaenses, permanece paralisada desde agosto de 2026. A proposta abrange quatro lotes contratuais por um prazo de 20 anos, estipulando uma frota de 746 veículos. Segundo dados apresentados pela agência em julho de 2026, ao menos 70% dos passageiros metropolitanos que se deslocam à capital utilizam a Rede Integrada de Transporte (RIT). O novo desenho prevê a redução de itinerários diretos, como o encerramento da linha Colombo/CIC na Praça Tiradentes e a alteração da rota Pinhais/Campo Comprido.
A modelagem proposta pela agência estadual contempla de 133 a 138 linhas e uma quilometragem de rodagem mensal fixada em 3,66 milhões de quilômetros. Os números contrastam com o panorama atual relatado pelo órgão, que contabiliza 235 linhas, 944 veículos (somando trechos municipais locais) e uma referência prévia de 4,24 milhões de quilômetros mensais.
No projeto sob responsabilidade da URBS, o Anexo 3.02 prevê a possibilidade de implantação do VLT Expresso Metropolitano a partir de 2031, ligando o Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, ao Centro Cívico de Curitiba. Caso o modal sobre trilhos seja concretizado, os estudos operacionais projetam o cancelamento das linhas de ônibus 500 (Ligeirão Boqueirão), 503 (Expresso Boqueirão), 505 (Boqueirão/Centro Cívico) e 206 (Barreirinha/São José). A mudança resultaria na retirada de 56 ônibus da frota operacional (62 da frota total) e em uma redução anual de 3,56 milhões de quilômetros e 182 mil horas de operação de ônibus.
A URBS pontuou publicamente que, na hipótese de atrasos no cronograma do VLT, a concessionária responsável pelo lote BRT1 deverá manter a renovação da frota sobre pneus, cabendo eventual revisão extraordinária para recomposição do equilíbrio econômico-financeiro do contrato. O planejamento municipal também detalha 36 intervenções em trajetos de bairros, englobando fusões, exclusões e alterações em 22 linhas convencionais, além do secionamento das linhas circulares 502/602 (Circular Sul) e 507/508 (Sítio Cercado) e do encurtamento do Ligeirão Pinheirinho/Carlos Gomes (linha 550).
Do ponto de vista econômico, as concessões municipais estabelecem uma taxa interna de retorno de referência de 10,14% reais ao ano para as empresas operadoras. O cálculo da remuneração é baseado em critérios operacionais e investimentos realizados, prevendo que eventuais descontos por descumprimento de metas de qualidade fiquem limitados a um teto de 3% do valor mensal pago à concessionária.
As discussões ocorrem em meio a dados históricos e relatórios técnicos sobre o transporte regional. Em 2025, o TCE-PR divulgou 37 achados de auditoria e 82 recomendações focadas na governança do sistema metropolitano. Estudos acadêmicos publicados na revista Future Transportation em 2026, em conjunto com artigos nos veículos CartaCapital e Brasil de Fato Paraná (2024), já haviam analisado indicadores do setor, destacando que o índice de passageiros por quilômetro nas linhas metropolitanas apresentava patamar 33% inferior ao registrado na capital. O cenário de reestruturação do transporte paranaense antecede também a entrada em vigor da Lei nº 15.432/2026, marco legal federal do transporte coletivo que passa a viger em 2027 com novas diretrizes para a integração regional, separação de tarifas e gestão de fundos de mobilidade.
Fonte:
brasildefato.com.br / Brasil de Fato
