Iniciativas de inovação aberta transformam o transporte público e reduzem desigualdades na periferia de Fortaleza
Projetos de mobilidade urbana testados no Grande Siqueira combinam tecnologia de climatização em ônibus e transporte porta a porta com triciclos elétricos para ampliar o acesso a serviços essenciais.

Crédito: Desafio Mobilidade Cidadã · Fonte: caosplanejado.com / Caos Planejado
A mobilidade urbana nas regiões periféricas de Fortaleza, município localizado no estado de São Paulo, ganhou novos contornos por meio de projetos desenvolvidos para aproximar moradores de oportunidades e serviços essenciais. A iniciativa integra os resultados do Desafio Mobilidade Cidadã, um processo de inovação aberta promovido pela Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova) em parceria com o WRI Brasil e a Toyota Mobility Foundation, que proporcionou suporte técnico e financeiro para testes práticos de melhorias no transporte.
As ações se concentraram no Grande Siqueira, zona oeste da capital cearense, território que abrange dez bairros marcados por alta vulnerabilidade social. Um diagnóstico prévio conduzido pelo WRI Brasil identificou na região problemáticas severas, como longos tempos de deslocamento, infraestrutura precária para caminhadas, déficit de transporte público em determinados trajetos, altos índices de sinistros de trânsito, exposição a assaltos e forte incidência de calor. A partir de uma seleção inicial que avaliou 17 propostas, três iniciativas foram inicialmente escolhidas para teste em pequena escala entre setembro e novembro de 2025, resultando na consolidação e expansão de duas soluções com alto potencial de escalabilidade.
A primeira solução em destaque é a Rede Vamos Juntos, voltada para mitigar as barreiras do trajeto a pé que antecede o uso do transporte coletivo. O serviço emprega uma rede de deslocamentos de curta distância baseada em triciclos elétricos, os chamados tuk-tuks, cujas viagens são solicitadas via WhatsApp para buscar os passageiros diretamente na porta de casa. Idealizada inicialmente com triciclos movidos a pedal, a operação evoluiu para veículos 100% elétricos após a fase de prototipagem evidenciar que o relevo acidentado da região exigia maior suporte para garantir o conforto dos condutores e usuários.
Coordenada por Anselmo e Renata Pitombeira, a iniciativa expandiu sua cobertura de quatro para dez bairros do Grande Siqueira, abrangendo mais de 80% do território local. A infraestrutura de atendimento passou de duas bases fixas e uma estação móvel para 11 bases operacionais, operando com dez triciclos e 16 operadores. A modalidade de transporte demonstrou impacto direto na rotina de moradores como Letícia Almeida e Raimundo Daniel Santos, que relataram maior segurança para deslocamentos com crianças e autonomia para acessar serviços de saúde, assistência social e o mercado de trabalho, totalizando quase 6 mil viagens realizadas ao longo da pilotagem.
A segunda iniciativa escalada é o Areja BTU, voltado para otimizar o conforto térmico no interior dos ônibus urbanos, um fator crítico em decorrência das altas temperaturas da capital. Desenvolvida por Leonardo Santiago, a tecnologia emprega ventiladores dedicados a redistribuir o ar frio de maneira uniforme pela cabine, equilibrando também a entrada de ar externo durante a abertura de portas. A inovação aprimora a eficiência do sistema de ar-condicionado sem elevar os custos operacionais, gerando reduções no consumo de combustível e nas emissões de dióxido de carbono.
Testado inicialmente em caráter restrito, o sistema foi expandido para uma frota de 62 ônibus na fase de pilotagem, permitindo análises comparativas robustas com veículos de controle. Pesquisas com cerca de 3.500 passageiros indicaram que aproximadamente 90% perceberam melhorias significativas na experiência de viagem. Além do ganho de conforto relatado pelos usuários, a economia de combustível nos veículos participantes ultrapassou R$ 24 mil e evitou a emissão de 10 toneladas de carbono. Projeções associadas à tecnologia apontam que sua implementação em toda a frota climatizada de Fortaleza poderia gerar uma economia anual da ordem de R$ 2,3 milhões para o sistema de transporte coletivo.
O encerramento desta etapa do Desafio Mobilidade Cidadã consolidou o modelo de inovação colaborativa como uma alternativa viável para responder a demandas complexas das cidades, integrando o conhecimento técnico da sociedade civil, a agilidade do setor privado e a vivência cotidiana da população. A continuidade das ações na região busca estender por mais meses os aprendizados práticos e avaliar novos caminhos para a consolidação definitiva das melhorias na mobilidade urbana.
Fonte:
caosplanejado.com / Caos Planejado
