Encontro Nacional lança mapeamento inédito do audiovisual para infância no Brasil

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Levantamento pretende identificar as condições de produção e circulação de conteúdos para crianças e adolescentes; profissionais e instituições podem participar até 20 de novembro.

O setor audiovisual voltado à infância e à adolescência no Brasil será objeto de um novo levantamento nacional destinado a reunir informações sobre sua estrutura e seus desafios. A pesquisa foi apresentada nesta sexta-feira (9 de outubro), durante o Encontro Nacional de Cinema Infantil, realizado em Florianópolis (SC), com a participação de aproximadamente 30 representantes da área. A iniciativa integra a programação da 25ª Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, que acontece até 17 de outubro, no Centro Integrado de Cultura e no Teatro Ademir Rosa.

Desenvolvido pelo Observatório Brasileiro do Audiovisual Infantil (OBA!), em parceria com a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, o Mapeamento do Audiovisual Infantil e Infantojuvenil no Brasil receberá contribuições de profissionais, empresas e instituições até 20 de novembro de 2026. As informações reunidas servirão de subsídio para análises sobre o setor e discussões relacionadas ao mercado e à formulação de políticas públicas. Os resultados serão posteriormente disponibilizados em documento de acesso público.

A apresentação da pesquisa ocorreu em meio a debates sobre financiamento, distribuição, regulamentação das plataformas digitais e ampliação do acesso das crianças às produções audiovisuais brasileiras. Entre as reivindicações discutidas esteve a destinação de uma cota transversal de 25% ao audiovisual infantil, apontada pelos participantes como uma medida necessária para fortalecer a produção nacional.

Participação do público e presença da produção brasileira

Dados apresentados pelo pesquisador Arthur Fiel, mestre em cinema e audiovisual, evidenciaram a diferença entre a participação dos conteúdos infantis no mercado exibidor e a presença de obras nacionais nesse segmento.

De acordo com levantamento do OBA!, seis em cada dez filmes exibidos nos cinemas brasileiros em 2025 eram destinados ao público infantil e infantojuvenil, segmento que registrou recorde de público. Apesar desse desempenho, a pesquisa apontou que apenas uma em cada dez obras assistidas era brasileira.

Para Arthur Fiel, os números demonstram que a dificuldade do audiovisual nacional para crianças não está relacionada à ausência de espectadores, mas às condições de desenvolvimento e circulação das produções. O pesquisador defendeu a adoção de estratégias e políticas capazes de ampliar a participação brasileira nesse mercado.

A diretora da Mostra, Luiza Lins, também relacionou o fortalecimento do setor à garantia dos direitos das crianças. Ao abordar os 25 anos de realização do festival, destacou a importância da continuidade das iniciativas que promovem o acesso do público infantil ao cinema e à produção audiovisual.

Luiza Lins (Foto: Carol Arruda)

Plataformas digitais e televisão entram no debate

As mudanças nos hábitos de consumo audiovisual das crianças estiveram entre as principais preocupações apresentadas no encontro. A presença das plataformas digitais, especialmente do YouTube, motivou discussões sobre regulamentação, publicidade e condições de concorrência entre diferentes meios de distribuição.

A escritora e roteirista Flávia Lins e Silva questionou a diferença entre as regras aplicadas à televisão e aquelas que orientam a circulação de conteúdos na internet. Na avaliação da autora, a televisão passou a oferecer um ambiente com maior definição de parâmetros pedagógicos e de proteção infantil, enquanto os canais digitais ainda suscitam preocupações relacionadas à exposição das crianças à publicidade.

Rosane Svartman, escritora, diretora e produtora de cinema, ressaltou a necessidade de combinar a defesa de políticas públicas com estratégias que permitam aos profissionais continuar desenvolvendo narrativas audiovisuais. A realizadora chamou atenção para a presença limitada de histórias ficcionais no YouTube, apesar da importância alcançada pela plataforma entre os espectadores mais jovens.

A discussão também contemplou as possibilidades de transformação da televisão. Beth Carmona, consultora e gestora de projetos infantojuvenis, destacou a contribuição das emissoras públicas para a difusão cultural e a representatividade. Ao tratar das perspectivas tecnológicas do setor, mencionou a TV 3.0 e as mudanças previstas na distribuição de conteúdos por meio da integração entre internet e radiodifusão.

A diretora e produtora Célia Catunda apresentou uma avaliação das transformações observadas nas últimas décadas. Segundo ela, houve ampliação do número de profissionais dedicados à produção infantil e dos espaços disponíveis para esses conteúdos. Ao mesmo tempo, o crescimento das plataformas digitais trouxe novos obstáculos para realizadores e instituições.

Distribuição e circuitos alternativos de exibição

Outro tema discutido foi a necessidade de reconhecer a circulação de filmes infantis fora das salas comerciais tradicionais. Os participantes abordaram a importância das relações entre produtoras e distribuidoras, além da inclusão dos circuitos escolares e cineclubistas nos levantamentos sobre o alcance das obras.

Iano Almeida, idealizador do Programa É Tudo Criança e membro fundador do OBA!, relatou experiências de exibição em um cineclube do interior de Minas Gerais cujas sessões não foram consideradas nas estatísticas do setor.

A observação reforçou a necessidade de aprimorar os instrumentos de acompanhamento da circulação audiovisual, de modo a contemplar atividades realizadas em escolas, cineclubes e outros espaços de formação de público.

Iano Almeida também defendeu maior articulação política dos profissionais ligados ao cinema infantil, com o objetivo de ampliar o diálogo com diferentes representantes do poder público.

Infância como prioridade nas políticas culturais

A mediação do encontro foi realizada por Isabela Silveira, gestora e pesquisadora da área de Cultura e Infância. Durante as discussões, ela abordou a insuficiente consideração das crianças nos processos de planejamento e nas estruturas institucionais.

A pesquisadora destacou que a participação das infâncias na organização da vida social precisa ser reconhecida também na elaboração das políticas culturais. Segundo sua avaliação, mesmo em períodos de maior abertura para iniciativas destinadas ao público infantil, as demandas das crianças frequentemente ocupam posições secundárias nas prioridades governamentais.

O Encontro Nacional de Cinema Infantil reuniu diferentes gerações de profissionais para examinar dificuldades compartilhadas pelo audiovisual infantil brasileiro e discutir possibilidades de atuação coletiva. As contribuições apresentadas abrangem desde o financiamento e a presença de produções nacionais nas salas de cinema até a regulamentação dos ambientes digitais e a identificação de circuitos alternativos de exibição.

Com o lançamento do mapeamento nacional, o Observatório Brasileiro do Audiovisual Infantil (OBA!) e a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis buscam ampliar a disponibilidade de informações sobre o segmento, oferecendo uma base de dados para futuras discussões institucionais e iniciativas de desenvolvimento do audiovisual destinado a crianças e adolescentes.

O formulário de participação está disponível no site da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis, com prazo de preenchimento até 20 de novembro de 2026.

Fábio Rocha Pina

E-mail: fabio@teatral.com.br

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