Diretriz inédita da OMS contra a obesidade infantil veta remédios e cirurgias para menores de 10 anos
Documento prioriza mudanças de hábito e apoio comportamental; no Brasil, pediatras alertam para os riscos do uso indiscriminado de emagrecedores

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, na quarta-feira, 7 de outubro, o seu primeiro guia voltado ao enfrentamento da obesidade em crianças e adolescentes. O documento estabelece que menores de 10 anos não devem utilizar medicamentos para emagrecer, injeções redutoras de peso ou passar por cirurgias bariátricas. No Brasil, onde o excesso de peso atinge uma parcela significativa do público infantil, as novas diretrizes reforçam a necessidade de focar em intervenções de estilo de vida.
Para a faixa etária abaixo dos 10 anos, a recomendação da entidade internacional é priorizar a adoção de uma alimentação saudável, a prática constante de atividades físicas e o suporte comportamental. O uso de tecnologias digitais, como jogos online que estimulem o movimento e dispositivos de monitoramento físico, é apontado como um recurso auxiliar válido.
Segundo Luz María De Regil, diretora do Departamento de Nutrição e Segurança Alimentar da OMS, a base terapêutica para esse público não reside em métodos invasivos ou farmacológicos. A especialista destaca que o foco deve ser um suporte amplo que viabilize transformações sustentáveis de comportamento. Ela ressalta ainda que não existem evidências científicas suficientes sobre a segurança e eficácia de medicamentos da classe dos análogos de GLP-1, como o Mounjaro e o Ozempic, para crianças menores de 10 anos.
Para a população infantojuvenil entre 10 e 19 anos, a OMS indica que os medicamentos para perda de peso só devem ser cogitados caso as intervenções comportamentais e de estilo de vida sob supervisão não apresentem resultados. Da mesma forma, a cirurgia bariátrica é recomendada apenas para adolescentes com obesidade grave que apresentem maturidade física e mental, e somente após um período mínimo de seis meses de tratamento clínico sem sucesso.
O guia também chama a atenção para a importância de cuidar da saúde mental dos pacientes durante o tratamento. Condições como ansiedade, depressão, baixa autoestima e dificuldades em regular as emoções andam de mãos dadas com o sedentarismo e hábitos alimentares inadequados. Esse cenário é agravado pelo estigma e pelo bullying enfrentados por jovens com obesidade, gerando um ciclo prejudicial ao bem-estar emocional.
De acordo com dados do Unicef, a obesidade se tornou o problema de nutrição mais frequente entre estudantes e adolescentes globalmente, superando o baixo peso. Em 2024, cerca de 170 milhões de pessoas de 5 a 19 anos conviviam com a condição no mundo — sendo 70 milhões na faixa de 5 a 9 anos e 100 milhões entre 10 e 19 anos. Desde 1990, a prevalência global da obesidade nessa faixa etária quadruplicou, saltando de 2% para 8%.
No cenário brasileiro, dados do Ministério da Saúde de 2020, referentes a crianças acompanhadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apontavam que 15,9% dos menores de 5 anos e 31,7% das crianças entre 5 e 9 anos apresentavam excesso de peso.
Atualmente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de canetas emagrecedoras em pacientes a partir de 10 anos exclusivamente para o tratamento de diabetes tipo 2, sendo proibida a prescrição para fins estéticos.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça o alerta contra o uso desses fármacos sem a devida indicação e acompanhamento médico. A entidade adverte que a utilização inadequada pode acarretar graves efeitos colaterais, como prejuízos no crescimento e desenvolvimento, desidratação, perda de massa muscular, pancreatite aguda e complicações na vesícula. Além disso, o uso estético pode funcionar como um gatilho para o surgimento de transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de desencadear quadros depressivos e de ansiedade associados à autoimagem.
Fonte:
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