Espetáculo “Mesmo Rio” adapta literatura de Elisama Santos para investigar dinâmicas de afeto e memória em família negra
Montagem dirigida por Renata Tavares e dramatizada por Rafael Souza-Ribeiro entra em cartaz no Teatro de Arena do Sesc Copacabana com foco na tridimensionalidade das relações humanas

A convivência familiar, com suas heranças emocionais, ruídos e manifestações de afeto, ganha a cena teatral no espetáculo “Mesmo Rio”, primeira adaptação cênica inspirada no romance de estreia da escritora Elisama Santos. A montagem cumpre temporada no Teatro de Arena do Sesc Copacabana de 17 de setembro a 18 de outubro, propondo um mergulho nas memórias e nos conflitos de três mulheres da família Soares reunidas durante a noite de Natal.
Com dramaturgia assinada por Rafael Souza-Ribeiro, a obra não realiza uma mera transposição do livro para os palcos, mas estrutura um dispositivo cênico próprio. A ação se concentra no momento em que a mãe, Maria Lúcia, interpretada por Sirléa Aleixo, e suas filhas Marília, vivida por Graciana Valladares, e Rita, papel de Mila Moura, decidem interromper a ceia para encarar um diálogo adiado por anos. O confronto expõe ausências, traumas, nuances do cuidado e feridas acumuladas ao longo do tempo.
A estrutura dramática desarranja a ordem cronológica tradicional. Segundo Souza-Ribeiro, o tempo linear é substituído pela invasão da memória no presente, fazendo com que perspectivas divergentes sobre os mesmos acontecimentos entrem em choque. A proposta aprofunda a pesquisa do dramaturgo em torno do melodrama e dos laços parentais, aplicando-a à vivência de uma família negra e buscando construir figuras complexas, que fogem de estereótipos rasos e definições simplistas.
Sob a encenação de Renata Tavares, o espetáculo evita julgar as atitudes das personagens a partir de uma lógica maniqueísta. A direção enfatiza que cada integrante da história carrega contradições inerentes à condição humana, apresentando figuras reais que podem ser reconhecidas no cotidiano das famílias brasileiras. Essa abordagem retira o espectador da busca por quem tem razão e o coloca diante das diferentes formas de lembrar e interpretar a existência compartilhada.
A perspectiva conversa diretamente com a trajetória de Elisama Santos, autora de best-sellers como “Educação Não Violenta”, “Por que Gritamos” e “Conversas Corajosas”. A escritora destaca que o livro já provocava identificação direta em leitores a ponto de ser levado para o contexto terapêutico. Para a autora, a peça preserva a relevância de mostrar a vida de uma família negra para além dos recortes de dor e resistência, retratando o simples ato de existir, amar e conviver em suas múltiplas dimensões, superando os papéis sociais rígidos de mãe, filha ou irmã.
A linguagem da montagem é construída a partir dos ritmos e sons da cena, mesclando momentos de suspensão e tensão dramática com elementos de humor e emoção. A direção musical é assinada por Ifátókí Maíra Freitas.
Contemplada pelo edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, a temporada no Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ) apresenta sessões às quintas e sextas-feiras, às 20h, e aos sábados e domingos, às 18h. Não haverá apresentações entre os dias 1º e 4 de outubro. A peça tem duração de 75 minutos e classificação indicativa de 12 anos. Os ingressos custam R$ 40 (inteira), R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniados empresário), R$ 28 (credencial plena Sesc) e R$ 20 (meia-entrada), havendo também gratuidade destinada ao público do Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG).
