Documentário gravado no sertão piauiense avança na disputa pelo Oscar ao investigar transformações sociais pelo olhar infantil
Dirigido por Eliza Capai, “A Fabulosa Máquina do Tempo” acompanha meninas de Guaribas em uma reflexão sobre memória, superação da miséria e perspectivas de futuro.

O documentário *A Fabulosa Máquina do Tempo*, dirigido e roteirizado pela cineasta Eliza Capai, consolida sua trajetória de destaque ao figurar na lista dos seis filmes finalistas para representar o Brasil na disputa do Oscar 2027. Gravada no município de Guaribas, no sertão do Piauí, a obra adota a perspectiva lúdica de crianças locais para examinar temas como fome, memória, machismo estrutural e transformações sociais decorrentes de políticas públicas.
Antes da indicação entre as obras pré-selecionadas no país, o longa-metragem iniciou seu percurso internacional com exibição na noite de abertura da mostra Generation Kplus, durante o Festival de Berlim. A estreia reuniu mais de mil espectadores e marcou a primeira viagem aérea e a primeira experiência em uma sala de cinema para integrantes do elenco mirim, como Manu, Manuzinha e Sofia. A produção também conquistou o prêmio de Melhor Feito Técnico-Artístico no Festival de Guadalajara, projetando a realidade do semiárido brasileiro para diferentes públicos e festivais ao redor do mundo.
A gênese do projeto remonta a 2013, ocasião em que Eliza Capai teve contato com o livro *Vozes do Bolsa Família*, de autoria dos pesquisadores Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani. Contemplada por uma bolsa de jornalismo investigativo, a diretora viajou a Guaribas para apurar o impacto da transferência de renda destinada prioritariamente às mulheres na alteração das dinâmicas de gênero. Naquele período, enquanto as mães relatavam infâncias marcadas pela privação extrema e pela busca por casamentos que as valorizassem, suas filhas já projetavam um futuro fundamentado na realização pessoal autônoma.
Após constatar essa alteração de subjetividade no local, Capai retornou à região em 2021 para acompanhar a geração nascida após a consolidação e ampliação do programa social. Ao lado da colaboradora Carol, a cineasta observou como as meninas lidavam de maneira distante com o histórico de escassez vivido por seus antepassados. O trabalho de campo culminou na fase de filmagens, realizada em 2024, após um processo pedagógico e de convivência com as famílias.
A construção narrativa baseou-se na realização de oficinas nas quais a equipe de produção atuava simultaneamente como corpo docente e pesquisadores. O elo de confiança estabelecido com participantes como Manu, Alice, Sofia e suas famílias permitiu que as brincadeiras infantis fossem utilizadas como ferramenta para processar acontecimentos complexos.
Em uma das sequências do documentário, a jovem Sofia descobre que crianças também podem falecer durante uma entrevista com sua mãe e, em seguida, elabora a questão brincando de zumbi com a prima. Em outro momento, Manu compreende que a mãe teria feito escolhas diferentes na juventude se não tivesse tido filhos tão cedo, passando a encenar a figura de uma mãe frustrada em suas atividades lúdicas.
O conceito da “máquina do tempo” estruturou-se durante a fase de montagem ao sintetizar a capacidade das crianças de transitar entre as memórias de privação vivenciadas por suas mães e avós e a projeção de expectativas mais leves para o futuro. O olhar infantil serve como ponte para abordar temas densos sem desconsiderar a capacidade de imaginação e a busca por caminhos utópicos.
Documentarista especializada em pautas de gênero e sociedade, Eliza Capai foi convidada a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas do Oscar em 2025. O currículo da realizadora inclui o premiado longa *Incompatível com a Vida* e o documentário *Espero Tua (Re)volta*, reconhecido com mais de 25 premiações. Capai assina ainda a direção da série *Elize Matsunaga: Era uma vez um Crime*, produzida para a Netflix, e do título *O Prazer é Meu*, indicado ao Emmy Internacional 2025.
Com percurso consolidado em mostras internacionais e premiações técnicas, *A Fabulosa Máquina do Tempo* segue em exibição no circuito de festivais de cinema enquanto aguarda a definição final da comissão responsável por selecionar o representante brasileiro na premiação da Academia norte-americana.
Fonte: gaz.com.br / GAZ – Notícias de Santa Cruz do Sul e Região
