“Primeiro de Outubro”: Almir de Amorim e o tempo de uma espera
Há uma porta para a qual o olhar retorna. Uma roupa escolhida com cuidado, uma casa preparada, pequenos gestos que tentam organizar a alegria de um encontro. Alguém prometeu chegar. Enquanto essa chegada não acontece, o tempo se alonga, ocupa os cômodos e transforma a expectativa em silêncio.

Uma reflexão sobre espera, memória e reconhecimento
a partir da presença de Almir de Amorim no curta-metragem
Primeiro de Outubro, de Ilson Araújo e Silvio Filho.
por Fábio Rocha Pina
Assisti a Primeiro de Outubro há alguns meses e, desde então, alguma coisa do filme permaneceu comigo. Não soube escrever imediatamente sobre ele. As imagens ficaram guardadas, misturadas a uma inquietação que eu ainda não conseguia nomear. Só agora estas palavras parecem encontrar em mim algum significado. Ou talvez não o encontrem por inteiro. Talvez sejam apenas uma tentativa tardia de compreender aquilo que continuou existindo depois da exibição.
Há filmes que se entregam no instante em que são vistos. Outros precisam atravessar um tempo dentro de nós. Afastam-se, tornam-se lembrança e retornam quando alguma experiência, algum afeto ou alguma memória nos permite enxergá-los de outra maneira. Foi assim com este curta-metragem roteirizado e dirigido por Ilson Araújo e Silvio Filho.
À primeira vista, Primeiro de Outubro conta uma história simples sobre a velhice, a ausência e o abandono. Afonso espera pela família. A casa está pronta, o corpo permanece atento e a esperança se alimenta de cada ruído, de cada movimento, de qualquer possibilidade de que a promessa se cumpra. Pouco a pouco, porém, aquilo que parecia ser apenas uma demora revela outra dimensão. O tempo deixa de ser passagem e começa a se transformar em abandono.
A espera nasce de uma circunstância cotidiana, mas se expande até preencher todos os espaços. Está na roupa escolhida, nos objetos, nos pequenos movimentos e no olhar que insiste em voltar para a porta. Aquilo que deveria ser apenas um intervalo se prolonga até quase se confundir com a própria existência do personagem.
A dramaturgia opta por um caminho direto, emocionalmente acessível, sem esconder do espectador aquilo que pretende dizer. Em alguns momentos, essa escolha pode tornar o percurso levemente previsível, mas de maneira singela, sem comprometer a experiência do filme. Há sentimentos que o texto anuncia antes que a imagem possa revelá-los e passagens nas quais a palavra poderia recuar um pouco, permitindo que o silêncio permanecesse sozinho em cena.
Mas o silêncio é justamente o lugar em que Almir de Amorim encontra a maior força de seu trabalho.
Seu Afonso não precisa exibir a solidão. Ele já vive dentro dela. Almir constrói o personagem com contenção, recusando o excesso e a procura por uma comoção fácil. A dor aparece num gesto suspenso, numa expressão quase desfeita, na permanência de um corpo que continua preparado para receber alguém, mesmo quando a esperança começa a perder seu apoio. Mesmo quando dança e sorri, há uma dor que persiste, e mesmo onde ainda há esperança, instala-se um vazio desconfortante.
Afonso não é apenas um homem que espera visitas que não chegam. É alguém que habita o intervalo entre o que lhe foi prometido e aquilo que o mundo entrega. Entre um passado de presença e um presente no qual restam lembranças, objetos e uma expectativa cada vez mais frágil. A espera não é somente o que ele faz. É a forma que sua existência assume.
É nesse ponto que a presença de Almir de Amorim abre no filme uma dimensão que ultrapassa a história contada. Torna-se difícil olhar apenas para a personagem. Há naquele rosto, naquele corpo e na juventude madura dos gestos uma vida artística anterior à obra, uma trajetória que não desaparece quando a câmera começa a filmar.
Ao pensar nessa espera, penso no artista, não no homem cercado pelo afeto de sua família. Almir é amado e acolhido, e conheço de perto a beleza dessa presença, especialmente em Luzia, sua esposa, mulher e artista admirável, cuja ternura e força sempre me tocaram. A espera de que falo pertence a outro lugar: o da arte, da memória e do reconhecimento que, tantas vezes, chega tarde demais.
Afonso espera por aqueles que deveriam chegar à sua casa. Almir, enquanto artista, parece representar tantos criadores que aguardam a chegada de um olhar coletivo, de uma instituição, de uma crítica ainda que subserviente, ou de um olhar sensivel dos agentes da cultura, de um carinho dos seus conterrâneos, que finalmente lhes diga: nós vimos o que você fez; sabemos o que sua obra significa; sua passagem por aqui não será esquecida.
Mas há aqui uma diferença essencial que desloca o sentido dessa espera. Afonso espera porque depende do outro para que sua expectativa se cumpra. Almir, ao contrário, não espera no sentido passivo do termo. Sua trajetória não é marcada pela suspensão, mas pela permanência ativa, pela insistência em existir e criar mesmo quando o reconhecimento não chega.
Ainda assim, há algo que lhe é devido: não uma espera que ele sustente, mas uma espera que o mundo deveria sustentar por ele. Uma espera ética, quase ontológica, que não nasce da carência do artista, mas da responsabilidade coletiva diante de sua obra. Se Afonso encarna a espera como condição humana, Almir revela a inversão dessa lógica: ele não aguarda ser visto, mas merece que o olhar venha até ele. Nesse sentido, a espera deixa de ser um gesto individual e se torna uma dívida histórica, um tempo que a cultura ainda precisa cumprir.
O filme não declara essa relação, nem parece ter sido concebido sob essa perspectiva. Contudo, a própria natureza da imagem cinematográfica – como já apontaram pensadores como André Bazin e Gilles Deleuze – ultrapassa a intenção imediata de sua realização, abrindo-se a camadas de sentido que emergem na experiência do espectador. A imagem não se esgota no que mostra; ela convoca um olhar que atravessa sua superfície e produz significados a partir de relações, memórias e afetos. Nesse sentido, a leitura que se impõe não decorre de uma escolha subjetiva isolada, mas de um processo interpretativo inerente ao encontro entre obra e espectador, no qual o tempo desempenha papel fundamental. Certas imagens, como sugere Deleuze ao tratar da imagem-tempo, só se revelam plenamente quando deslocadas de sua imediaticidade, permitindo que o pensamento as alcance em outra duração.
A presença de Almir introduz uma fissura na narrativa. O espectador acompanha a solidão de Afonso, mas pode também perceber, por trás dela, uma questão mais ampla: quantos artistas atravessam uma vida inteira sem receber o reconhecimento correspondente à importância de seu trabalho? Almir possui, é verdade, um reconhecimento significativo no nosso estado, com prêmios e homenagens que atestam sua relevância. Ainda assim, esse reconhecimento permanece muito aquém da dimensão de sua trajetória e da importância de sua obra. Somos da mesma amada cidade, Mineiros, no sudoeste goiano, berço do Rio Araguaia, terra de tantos outros artistas desconhecidos e esquecidos, um lugar de onde raros sabem de nós e, sobretudo, da grandeza de Almir. Quantas trajetórias, como a sua, permanecem conhecidas apenas por familiares, amigos, companheiros de ofício e por um círculo cada vez menor de testemunhas?
O esquecimento não acontece de uma vez. Ele se constrói lentamente, pela soma dos adiamentos. Uma homenagem que fica para depois. Um registro que ninguém realiza. Uma obra que deixa de circular. Uma história que não encontra quem a preserve. Quando finalmente se percebe a perda, talvez já não haja mais tempo para reparar a ausência.
Nesse sentido, Primeiro de Outubro ultrapassa o tema do abandono familiar. O curta toca, ainda que indiretamente, na maneira como uma sociedade se relaciona com sua memória. Esquecem-se pessoas idosas, mas também artistas, mestres, obras e experiências que não encontram instituições ou gestos capazes de protegê-las do desaparecimento.
O elenco, formado por Almir de Amorim, Mirelle Araújo, Ilson Araújo e Roger Faria, revela empenho e sensibilidade, ainda que nem sempre encontre, em meio a recursos mais modestos e a uma narrativa de construção simples, o espaço necessário para um aprofundamento mais rigoroso de seus personagens. Há, por vezes, uma certa rarefação na construção das subjetividades, como se as figuras em cena orbitassem em torno de um final já esperado, sem espaço para aprofundamento que não chega a se desdobrar plenamente. Nesse contexto, Mirelle Araújo assume uma grande relevância pelo fato de funcionar como uma espécie de mediação para o olhar do espectador: sua presença acolhe, sustenta a cena e, com sutileza, cria uma via de acesso ao universo de Afonso, colocando o público na posição de observador através dela, mais como apoio ao percurso do protagonista do que como eixo de aprofundamento próprio.

Não desmereço, de forma alguma, os trabalhos desses artistas ao concentrar meu olhar em Almir; ao contrário, reconheço que suas trajetórias também carregam densidade, complexidade e mereceriam, cada uma à sua maneira, um olhar igualmente atento e aprofundado. Há ali percursos que certamente abririam outras leituras possíveis do filme, outras camadas de sentido que poderiam ser exploradas com a mesma dedicação que aqui ofereço. O que faço, portanto, não é estabelecer uma hierarquia de importância, mas assumir um ponto de vista. Trata-se de um recorte inevitavelmente subjetivo, atravessado pela minha experiência, pelas minhas referências e pelo modo como este encontro específico, entre o filme e a presença de Almir, se inscreveu em mim.
O roteiro, contudo, parece por vezes se aproximar dessas possibilidades com certa cautela, optando por uma condução que, embora sóbria, nem sempre explora plenamente os caminhos que poderiam surgir para além do texto. Em alguns momentos, sente-se falta de um trabalho mais atento com o silêncio, com o não dito e com aquilo que a imagem pode sugerir por si só. A palavra acaba assumindo um papel central na construção de sentido, o que, em certa medida, reduz a força visual e a abertura para ambiguidades que poderiam enriquecer a experiência. Soma-se a isso um ritmo que, em alguns trechos, se mostra mais direto e previsível, lembrando uma dinâmica mais próxima da televisão, em contraste com o tempo próprio do cinema, onde a pausa, a duração e a sugestão costumam ampliar as possibilidades de significado. Essa escolha, que atravessa tanto a escrita quanto a encenação, assinadas por Ilson Araújo e Silvio Filho, faz com que o filme, ainda que sustentado por um elenco comprometido, deixe entrever lacunas que uma abordagem dramatúrgica mais ousada e aprofundada poderia ter preenchido com maior vigor.
Também é preciso reconhecer o próprio gesto de realização. Produzir cinema em Goiás, ou fora dos grandes centros e praticamente sem incentivo consistente, é enfrentar não apenas limitações técnicas, financeiras e estruturais, mas também uma histórica negligência institucional. Trata-se de uma produção independente, sem fins lucrativos, sustentada muito mais por insistência, afeto e compromisso artístico do que por qualquer garantia material. Nessas condições, realizar um filme é, por si só, um ato de resistência e de preservação da memória e do patrimônio artístico e cultural.
As marcas dessas limitações podem aparecer em alguns momentos, mas ignorar o contexto em que a obra foi criada seria não apenas injusto, mas intelectualmente pobre. Há, no filme, uma qualidade que não deve nada ao que se produz em contextos mais favorecidos, justamente porque nasce de um esforço coletivo que ultrapassa a escassez. É um cinema que se faz apesar de tudo, e por isso mesmo carrega uma dimensão quase heroica.

Diante disso, qualquer análise que desconsidere essas condições corre o risco de se tornar um exercício vazio, preso a parâmetros que não dialogam com a realidade da obra. Talvez a minha própria leitura, com suas tentativas de interpretação e elaboração teórica, não passe de um gesto limitado diante da força concreta desse fazer. Se assim for, que seja recebida com a devida relativização e, quem sabe, com meu mais humilde pedido de desculpas.
Voltando ao que iniciei, o que permanece, para mim, neste momento, é o olhar sobre Almir.
Sua atuação desloca o filme do campo da representação para o campo do testemunho. Há uma diferença entre construir uma emoção e conhecer intimamente o território de onde ela nasce. Almir oferece ao espectador uma presença atravessada pelo tempo. Cada silêncio seu parece guardar não apenas a vida da personagem, mas a experiência de um artista que aprendeu a permanecer.
Talvez por isso eu tenha precisado de meses para escrever estas palavras. Talvez ainda não saiba exatamente o que elas significam. Sei apenas que o filme não terminou quando a exibição acabou. Alguma coisa ficou esperando dentro de mim, como se também aguardasse o momento de ser reconhecida.
Ao final de Primeiro de Outubro, Afonso permanece ligado à promessa de uma chegada. Fora da ficção, porém, o que me inquieta é outra espera: a de que Almir de Amorim receba, como artista, o reconhecimento que sua trajetória merece.
Primeiro de Outubro fala da velhice, da ausência e da fragilidade dos vínculos, mas, ao colocar Almir no centro de sua narrativa, desloca-se para uma reflexão mais ampla sobre o tempo como experiência ética e a memória como responsabilidade coletiva. O filme evidencia que a espera não é apenas uma condição individual, mas um sintoma de uma cultura que adia o reconhecimento e naturaliza o esquecimento. Nesse sentido, a presença de Almir transforma a narrativa em um gesto filosófico: revela que a justiça não se limita ao campo jurídico, mas se estende ao modo como uma sociedade preserva, valoriza e reinscreve seus criadores na história. Meu texto nasce desse incômodo, dessa percepção de que a arte, quando atravessada pela vida real de quem a sustenta, expõe não apenas emoções, mas também falhas estruturais de memória e de reconhecimento.
Talvez seja por isso que tenha permanecido tanto tempo em mim. Não apenas pela história de Afonso, mas porque o rosto de Almir faz a ficção transbordar e alcançar aquilo que existe fora dela. Em seus gestos, a espera deixa de ser somente a expectativa de uma chegada e se transforma numa pergunta dirigida a todos nós: o que fazemos com os artistas que abriram caminhos, formaram pessoas, sustentaram a criação e atravessaram o tempo sem que sua obra recebesse o lugar que lhe é devido?
Escrevo, portanto, não para encerrar o filme, mas para prolongar o que ele despertou. Afonso ainda olha para a porta. Almir, como artista, não precisa esperar diante dela. Cabe à nossa memória atravessá-la enquanto há tempo, chegar até sua obra e reconhecê-la em vida, com a atenção e a grandeza que ela merece. Talvez estas palavras tenham demorado meses porque algumas esperas só revelam seu verdadeiro sentido quando compreendemos que não pertencem apenas a quem espera, mas também àqueles que ainda não chegaram.
Fábio Rocha Pina
Niterói – RJ
10/07/2026
Assista ao filme
Primeiro de Outubro pode ser assistido gratuitamente no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=bg60BMnYneA
FICHA TÉCNICA
Título: Primeiro de Outubro
Gênero: Drama
Elenco: Almir de Amorim, Mirelle Araújo, Ilson Araújo e Roger Faria
Roteiro: Ilson Araújo e Silvio Filho
Direção: Ilson Araújo e Silvio Filho
Direção de fotografia: Saymon Santos e Silvio Filho
Produção executiva: Ilson Araújo
Produção geral: Silvio Filho
Áudio: Henrique Santos
Edição: Silvio Filho
Produtora: Sisilia Films




