A Costura entre Matéria e Vestígio, Poética da Presença e do Vazio em Tatti Simões
Sobre a obra de Tatti Simões em Exposição no Centro Cultural dos Correios em Niterói.
Fui visitar a exposição “Ecos”, e algo permaneceu em silêncio depois do olhar; duas semanas depois, “Contos” fez desse silêncio uma ressonância mais profunda.
Este breve relato propõe uma reflexão sobre a produção de Tatti Simões, a partir do contato com suas obras apresentadas recentemente em Niterói. A artista integrou duas exposições distintas no Espaço Cultural Correios: Ecos, em cartaz até 21 de fevereiro, e Contos, com visitação até 28 de março. Ambas reuniram trabalhos do coletivo Contemporâneos, sob curadoria de Lu Valença. As exposições constituíram um campo de ressonância preciso, no qual a pesquisa de Tatti Simões encontrou plena expansão poética e densidade de leitura.
Cumpre ainda destacar a notável diversidade de linguagens, estilos e procedimentos técnicos presentes nas exposições, onde convivem distintas materialidades, poéticas visuais e estratégias construtivas, articulando desde investigações formais rigorosas até proposições sensoriais e conceituais de elevada densidade. Tal amplitude, longe de dispersar o conjunto, revela-se como um dos maiores acertos da curadoria, que logra estabelecer um campo de ressonâncias coerente e intelectualmente consistente entre obras heterogêneas. A referência particular à produção de Tatti Simões emerge, portanto, não como hierarquização, mas como registro de uma experiência estética singular que, por circunstância sensível e temporal, me atravessou de modo mais profundo; entretanto, é imperioso reconhecer que outras obras e outros artistas ali presentes igualmente suscitam camadas interpretativas complexas e mereceriam, por justo mérito, reflexões críticas próprias e tão extensas quanto esta.
A produção de Tatti Simões inscreve-se em um território de investigação sensível no qual matéria, gesto e memória deixam de operar como elementos acessórios e passam a constituir o eixo da linguagem. Seu trabalho articula fragmentação e delicadeza como princípios estruturantes, instaurando superfícies que não se encerram na imagem, mas se oferecem como campo de experiência.

Bordados, costuras, colagens e camadas pictóricas configuram uma gramática plástica em que o fazer manual permanece visível como índice de presença. Não há virtuosismo ornamental, há elaboração. A matéria não ilustra ideias, incorpora-as. Cada peça se apresenta como vestígio de um processo interior, atravessado por tempo, afeto e transformação.
No contexto das duas mostras, embora autônomas, percebia-se um diálogo de atmosferas e proposições. Em meio ao conjunto, a obra de Tatti Simões destacou-se pela densidade silenciosa e pela coerência de sua pesquisa.
Diante de seus trabalhos, o espectador é deslocado da posição de mero observador para a condição de participante sensível. A experiência não se organiza como contemplação distanciada, mas como imersão em superfícies espessas, onde tinta, tecido, papel e objeto convivem sem hierarquia.

A espacialidade resultante oscila entre pintura e presença, entre plano e corporeidade. Não se trata de representação, mas de vestígio. A imagem não afirma, insinua. Não descreve, alude. Essa economia discursiva amplia a potência simbólica e abre o campo interpretativo.
A costura, recorrente em sua pesquisa, ultrapassa o âmbito técnico e assume dimensão estrutural. Opera como princípio de junção e tensão. Se há fragmentos, há também tentativa de recomposição. O bordado não adorna, inscreve.
Cada ponto institui uma temporalidade própria, lenta e concentrada, em contraposição à aceleração exterior. O trabalho constrói-se como cartografia de uma interioridade que não se declara, mas se deixa perceber na espessura dos materiais.

Percebe-se ainda uma dimensão espiritual discreta, sugerida mais como atmosfera do que como símbolo explícito. As obras parecem nascer de um processo de escuta profunda, no qual a artista transforma experiência vivida em elaboração sensível.
A manualidade reafirma a arte como prática encarnada, recusando a frieza industrial e afirmando uma ética do fazer. O uso de técnicas mistas intensifica a tensão entre superfície e profundidade, consolidando uma linguagem que privilegia a presença sobre o efeito.
Em determinados momentos, a recorrência de procedimentos formais produz continuidade entre as peças, fortalecendo a identidade poética do conjunto, ainda que reduza contrastes mais abruptos. Contudo, essa insistência em um mesmo campo problemático consolida a coerência de sua investigação.
A relação instaurada com o público é silenciosa e desprovida de espetáculo. Não há busca por impacto imediato. A obra exige tempo, disponibilidade e escuta.
O encontro se dá em intensidade contida e profundidade duradoura. Não conduz, acompanha. Não impõe, oferece. Nesse gesto, cria-se um espaço de interioridade compartilhada.
Ao final do percurso, permanece não uma imagem isolada, mas uma atmosfera. A produção de Tatti Simões é a arte como possibilidade de reorganização sensível da experiência, como exercício de recomposição entre memória e matéria.
Sua potência não reside no estranhamento ruidoso, mas na permanência silenciosa que se instala após o olhar.
Fábio Rocha Pina
24 de fevereiro de 2026
Saiba mais:
Instagram Tatti Simões: instagram.com/tattisimoesatelier | Instagram Contemporâneos: instagram.com/contemporaneosgaleria | Instagram Lu Valença (curadora): instagram.com/luvalenca
Espaço Cultural Correios Niterói
Endereço: Av. Visconde do Rio Branco, 481 – Centro, Niterói – RJ
Visitação: de segunda a sexta, das 11h às 18h; aos sábados, das 13h às 17h
Entrada gratuita

